Não foi preciso nada... Bastou-lhe ser... Nunca me pediu nada, nunca me ralhou nem me chamou a atenção. Nunca disse, chega-me isto ou aquilo... Nunca disse, vai arrumar, vai buscar, vai fazer. Nunca me deu um estalo... O contacto físico mais violento era um abraço ou um beijo...
Nunca me disse que não, nunca foi preciso. Nunca tinha calor ou frio, nunca estava mal disposto, nunca se aborrecia de esperar por ela, e ela demorava muito tempo a arranjar-se... Nunca tinha pressa, nunca lhe vi rugas que não as de expressão (de afectos)... Andava sempre impecável, nunca o vi comprar roupa. Nunca o ouvi discutir, ou falar alto, nunca se queixou do trabalho, nunca se queixou dela, nem da família, nem dos vizinhos, nem dos amigos, nem dos inimigos (porque não tinha). Nunca hesitava, sabia sempre onde ir, sabia sempre o que lhe apetecia comer no restaurante, era sempre ele que pagava, fôssemos dez ou cem. Nunca estava doente, nunca lhe doía nada, nem os dentes, nem a garganta. Não usava placa... Não era mulher mas usava laca. Não usava perfume. Nunca dizia palavrões, excepto um “merda” nalgumas anedotas. Não era doutor mas muitas pessoas chamavam-no assim.
Bastou-lhe ser, e a mim, bastou-me vê-lo ser para aprender...
Ah, e nunca fez a barba! Não foi avô?