Quando se sentou à noite em
frente ao toucador, depois do jantar que reuniu os filhos e a família chegada,
para celebrar os seus sessenta e cinco anos, ficou-se a olhar o espelho. E como
esperando ver-se nova, espantou-se. Espantou-se com o enrodilhado da cara, com
o cabelo grisalho, com a maquilhagem borratada porque sem tempo, com os papos
dos olhos inchados de lágrimas por tristezas que não chorou. Pensou no Vasco
que lhe rondou as saias no viço dos dezoito anos, mais velho e sabido, chegava
à porta de casa dos seus pais e apitava duas vezes, sempre de óculos à aviador,
pólo do crocodilo e cigarro na boca.
O pai gritava-lhe:- Não saias com esse malandro.
Tinha razão, o Vasco depressa desapareceu, não lhe levando nada mais que uns beijos e uns amassos. Depois apareceu o Jaime e até hoje o Jaime.
Olhava-se ainda ao espelho e não se sentia. Procurou-se nos últimos trinta anos e não se viu. O marido já não bem marido, já só chinelos e roupão na cova do sofá, já só,
- Chega-me o cinzeiro Luísa.
Já só um beijo desajeitado e rápido de lábios cerrados,
- Parabéns.
Os filhos já não bem filhos, como visitas em casa, para quem se cozinha, se lava e passa uma roupa, e de vez quando um cheque a sair da carteira para ajudar na escola dos netos.
Sentia-se revoltada, subtraída de vida, procurou-se nos últimos trinta anos e viu-se mãe, esposa, cozinheira, empregada de limpeza, médica, enfermeira, professora, motorista, fazedora de tantas tarefas que nem nomes há para as qualificar.
Quando se deitou, cansada, já o Jaime na cama, não bem o Jaime na cama, antes um ronco que denunciava o Jaime. Fechou os olhos e pensou que os homens a força bruta do mundo, as mulheres a força calma e resistente. As mulheres a força do dia-a-dia, que sustenta a vida que faz andar o mundo. No momento imediatamente antes de adormecer disse baixinho,
- As mulheres: a maior força do mundo.
O Jaime ressonou alto, e a maior força do mundo, dormiu…