- Aquela sombra sou eu? Sou aquele miúdo magrinho a jogar à
bola, ainda por cima com cabelo à menina?
Meia tigela na cabeça, e o Landinho,- Não mexa a cabeça menino,
ao mesmo tempo que me ferrava o punho no pescoço e me punha em sentido.
Passa-se o tempo tão rápido.
- Aquela sombra sou eu?
Não posso ser eu, aquele ali a pingar amores pelos passeios junto ao liceu, com o cabelo lambido em gel e a suar desodorizante em spray de supermercado, daqueles que faziam as mulheres abraçar-nos por trás e nos impediam de fecharmos a camisa de ganga.
- Aquela sombra sou eu?
Não sou eu naquela fotografia, não, não pode ser, aquele no meio de dois velhotes com um canudo de metal na mão e uma gravata igualzinha à do meu pai, não.
Serei aquele no carro vermelho a passar, a subir a encosta para casa do George Harrison onde toco bateria e pareço feliz?
- Aquela sombra sou eu? Aquela sombra fui eu?
Fico-me aqui a pensar se seremos todas as sombras somadas de nós, ou só a sombra de agora, e por cima de mim: uma sombra de dúvidas.