terça-feira, 24 de julho de 2012

Dia 81

- Aquela sombra sou eu? Sou aquele miúdo magrinho a jogar à bola, ainda por cima com cabelo à menina?
Meia tigela na cabeça, e o Landinho,
- Não mexa a cabeça menino,
ao mesmo tempo que me ferrava o punho no pescoço e me punha em sentido.
Passa-se o tempo tão rápido.
- Aquela sombra sou eu?
Não posso ser eu, aquele ali a pingar amores pelos passeios junto ao liceu, com o cabelo lambido em gel e a suar desodorizante em spray de supermercado, daqueles que faziam as mulheres abraçar-nos por trás e nos impediam de fecharmos a camisa de ganga.
- Aquela sombra sou eu?
Não sou eu naquela fotografia, não, não pode ser, aquele no meio de dois velhotes com um canudo de metal na mão e uma gravata igualzinha à do meu pai, não.
Serei aquele no carro vermelho a passar, a subir a encosta para casa do George Harrison onde toco bateria e pareço feliz?
- Aquela sombra sou eu? Aquela sombra fui eu?
Fico-me aqui a pensar se seremos todas as sombras somadas de nós, ou só a sombra de agora, e por cima de mim: uma sombra de dúvidas.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Dia 80


Dia acordado à pressa, não te vejo na cama, penso que já foste, distraio-me na barba e no chuveiro apressado, prometo que hoje me vou deitar mais cedo, para dormir muito, prometo sempre. Parece que já saíste. Digo que nunca mais vou usar gravata, digo sempre, não cumpro nunca. Tenho a vida adiada, até à próxima fatalidade, ou até à reforma, porque até lá ainda não tive tempo para nada. Esse mesmo tempo que reclamas ser para ti, esse mesmo tempo, não existe, sou um marido adiado, um pai adiado, um amante adiado. Dizes que vivo para o trabalho, não! Trabalho para sobreviver, para sobrevivermos. Isto tudo na cabeça entre a casa de banho e a porta da rua. Chego à entrada numa ansiedade operária que precede o picar do ponto, remexo os molhos de chaves, moedas soltas e cartões de visita, nunca acerto nas chaves, meto tudo nos bolsos. Desço elevadores abro portas de escadas e garagens, preciso de quatro chaves para conseguir sair de carro, e nunca acerto à primeira.
Trânsito e nova garagem, e mais portas, cartões e chaves para chegar à secretária. Trabalho, trabalho, trabalho.
Chego a casa já dia adormecido, sento-me, sento-me não, caio, caio no sofá. E logo que caio, os meus olhos num envelope ao centro da mesa, é uma carta, diz João, é para mim. É tua. Diz que fui o amor da tua vida, que te aconteci como num sonho, que fui o homem mais incrível e carinhoso, que parecia mentira, que não podia ser verdade, que como eu não existia. Mas, diz a carta também, que como vais avançada de idade, a entrar pelos quarenta adentro, que querias assentar e ter filhos, e que alguém como eu não dá segurança a ninguém. A carta também diz: Adeus. A puta da carta.         

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Dia 79

Não fazes um barulhinho sequer, sais devagarinho, voltas e abres a janela do sorriso, que me acorda e me dispõe a tudo. Fico quieto. Os olhos tão bonitos. Quem me dera esses olhos a espreitar dentro de ti. Tão bem. Tão bom. Posso morrer. Posso morrer agora. Depois os dois. Depois acabam as pessoas, depois tudo o que está à volta das pessoas. Depois a nuvem branca a vogar no celeste azul à volta do mundo. O amor é a nossa casa, somos a nossa casa. Um abraço de força, que meigo e suave encaixe. O dia não está bonito nem chove, como acontece normalmente nestes textos. Mas em nós há sol. Somos tão pouco. A vida inteira não chega. Não peço mais. Quero bocadinhos destes, metidos em caixinhas, assim me basta.