sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Dia 59

Normalmente no sofá, melhor, na angústia do sofá, sinto vontade, e então esfrego o meu pé na tua perna, tu estás com o crochet, dizes
-Pára Edgar
e eu paro num amuo infantil, paro há tantos anos que nem sei o que faria se atirasses pelo ar o crochet e saltasses para o meu colo. Enfim, escondo-me no jornal e amaino o prazeroso pecado.
Outras vezes na cama, encosto uma perna, belisco-te o braço, tu sacodes-te de mim, e ficas toda dentro do livro, que finges ler (pelo menos há dez anos) daquele senhor magrinho que diz notícias na televisão. Detesto adormecer contrariado. Mas sabes, eu ainda te vejo menina com vinte anos, ainda me encanto com pequenos gestos teus, por exemplo adoro ver-te pôr os brincos, cabeça ligeiramente inclinada para cima e para o lado, as duas mãos penduradas na orelha, e aquele olhar indefinido que vocês fazem ao pô-los, um olhar distante para cima, como se olhassem para dentro de vós, diz-me, para onde olhas quando pões os brincos?
Ao cabo e ao resto, nem sei quando a última vez. Maio, ou naquela passagem de ano em que conheceste o licor de café, e rimos a noite inteira? Aí parecias como com vinte anos.
Agora não, agora levantas-te da cama como nos filmes, a enrolar o lençol para me esconderes o peito. Até eu me envergonho já, vestimo-nos de costas um para o outro, como que se de tanto tempo juntos nos tornássemos estranhos, perdidos da intimidade que nos fez, e que nos deitou nesta cama há mais de vinte anos.
Agora que saio do quarto, aposto que se olho para trás, as duas covas da nossa cama, a minha mais funda a tua mais subtil, se entrelaçam o dia inteiro, e só se separam à noite quando voltamos para elas...

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Dia 58


É verdade que podia ter ido buscar os miúdos. Podia ter passado no restaurante e comprado comida, podia ter levado o carro à revisão, podia ter pendurado o quadro que te deu o teu chefe (feio o raio do quadro) que é uma excelente pessoa (humilde dizes tu), podia ter passado no supermercado para comprar acendalhas (sou eu que acendo a lareira), é verdade, podia, podia mas não fiz nada disso.
Sabes que há dias em que acordo meio esquisito, um pé no mundo e o resto de mim fora dele, como que a querer fugir, a querer ficar sossegado, a olhar-vos de longe, neste mundo que o Homem inventou, neste mundo que gira mais rápido que ele próprio. Consta que Deus o fez com calma, uma semana de Deus são milhares de anos de Homem.
E sabes, esses “podias” com que me atormentas estão a dar cabo de mim, e por consequência, de nós. Sabes que esses “podias”, parece que nos chamam
- Preguiçoso
e nos puxam para o mundo, carregados de tarefas.
É verdade que podia, mas não é menos verdade que podias ser mais carinhosa comigo, podias ser mais amante, podias ser mais mulher, podias pensar em nós, podias namorar comigo, podias sair comigo, jantar, ir ao cinema. Esta preguiça dói, a preguiça de afectos, a preguiça do carinho e do amor.
Afecto, carinho, amor, precisam de uma nuvem de sossego, de um tempo lento, sem segundos nem minutos, e do mundo todo a desaparecer lá fora e a fazer-nos três: tu, eu, nós.