Normalmente no sofá, melhor, na angústia do sofá, sinto vontade, e então esfrego o meu pé na tua perna, tu estás com o crochet, dizes
-Pára Edgar
e eu paro num amuo infantil, paro há tantos anos que nem sei o que faria se atirasses pelo ar o crochet e saltasses para o meu colo. Enfim, escondo-me no jornal e amaino o prazeroso pecado.
Outras vezes na cama, encosto uma perna, belisco-te o braço, tu sacodes-te de mim, e ficas toda dentro do livro, que finges ler (pelo menos há dez anos) daquele senhor magrinho que diz notícias na televisão. Detesto adormecer contrariado. Mas sabes, eu ainda te vejo menina com vinte anos, ainda me encanto com pequenos gestos teus, por exemplo adoro ver-te pôr os brincos, cabeça ligeiramente inclinada para cima e para o lado, as duas mãos penduradas na orelha, e aquele olhar indefinido que vocês fazem ao pô-los, um olhar distante para cima, como se olhassem para dentro de vós, diz-me, para onde olhas quando pões os brincos?
Ao cabo e ao resto, nem sei quando a última vez. Maio, ou naquela passagem de ano em que conheceste o licor de café, e rimos a noite inteira? Aí parecias como com vinte anos.
Agora não, agora levantas-te da cama como nos filmes, a enrolar o lençol para me esconderes o peito. Até eu me envergonho já, vestimo-nos de costas um para o outro, como que se de tanto tempo juntos nos tornássemos estranhos, perdidos da intimidade que nos fez, e que nos deitou nesta cama há mais de vinte anos.
Agora que saio do quarto, aposto que se olho para trás, as duas covas da nossa cama, a minha mais funda a tua mais subtil, se entrelaçam o dia inteiro, e só se separam à noite quando voltamos para elas...