quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Dia 69


A Amélia viúva, em trajes negros e lenço de luto a atar a cabeça, vai todos os dias ao cemitério. Pára na florista do mercado e pede um molhinho do que houver, às vezes margaridas, outras crisântemos, às vezes uma rosa roubada do jardim do senhor doutor, a coberto do cedo do dia. Quando só há malmequeres diz
- Meu Deus nem pensar, o meu bem querer pelo meu homem ainda o tenho, se lhe boto malmequeres o que é que ele há-de pensar!
Chega cedo, e antes de depositar as flores na jarra velha de pedra, desata a limpar a campa com uma vassourinha pequena. Fá-lo com tal vigor que fica vermelha e ofegante, mas feliz, e não perde uma oportunidade de dizer a toda a gente
- A mármore mais branca do cemitério é a do falecido da Amélia viúva.
Depois com um lencinho, limpa a fotografia de esmalte do morto, enche a jarra com água limpa, põe-lhe as flores e deposita-a na laje que brilha. Em pose de prece e em frente à campa, mexe os lábios depressa a rezar poemas dos apóstolos. Depois vai, e amanhã volta.
Eu gostava de ser como a Amélia viúva, não na parte do viúva claro, mas gostava de ir ao cemitério para estar com os que amo (amei?), acreditar que eles lá estão e falar sozinho com eles, mas sempre que lá vou parece que combinaram e foram todos embora.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Dia 68


A minha vizinha loira (que nasceu morena), deixa um rasto de perfume do rés-do-chão ao quinto andar, incluindo claro o elevador. Digo que nasceu morena porque cabelo loiro mas sobrancelhas castanho escuras.
Eu moro com a minha mãe, que coitada sofre dos nervos e da cabeça, que coitada precisa de mim, que coitado preciso dela.
Há meses mudou-se para cá, e dirige com profissionalismo e garbo uma boutique no centro comercial antigo aqui do bairro.
Quando não estou a partir lorenins, xanaxes, e anti-depressivos para os cocktails da minha mãe (que os toma com café), estou a espreitar a loira.
Do buraco da porta ou da marquise, da janela do quarto ao café do Albino, estou com ela em mira sempre que posso, que isto de estar desempregado tem as suas vantagens, e nas coisas do amor não olho a gastos, nem de tempo nem de dinheiro.
Sai de manhã, não muito cedo, e eu sigo-a, primeiro com o nariz ao alto a farejar a colónia inebriante, depois com os olhos em alvo naquelas calças de couro ( não sei se napa se couro), nos sapatos altos e brilhantes como que a desafiar a gravidade, no casaco peludo leopardo e por fim naquela melena loira. Digo que a partir daí todas as minhas partes em sobressalto. Na quinta-feira tomei-me de coragem e convidei-a para jantar no restaurante snack-bar Nelito na rua ao fundo.
Primeiro nervoso, depois tranquilo, derivado à carga etílica do vinho da casa, que o Nelito manda vir de Espanha, fiquei deliciado a ouvi-la. Disse-me que curtia cenas e que o melhor do mundo são as crianças, disse-me que é por isto que o país está assim e que adora citações do Paulo Coelho. Percorreu cheia de opiniões toda a actualidade politica e toda a não politica também, disse-me em quase lágrimas que estava só e de bem com a vida, e eu acenava a cabeça que sim, completamente rendido àquela mulher linda e culta. Sim, linda e culta. No final disse-me,
- Pedras no caminho? Guardo-as todas, para um dia construir um castelo!
 Linda e culta, muito muito culta!