sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Dia 105

Quando estou aqui, a montar palavras, letrinha por letrinha para que encadeadas façam sentido, estou só e sem barulho, mas a televisão de companhia, silenciosa. Sucede que há dias, a passar canais (só quatro) tentando escolher (quatro sobram-me perfeitamente), entre o maior especialista em economia, o segundo e o terceiro maior, o dedo calca a tecla que os cala e surge pujante um animal que grita,
- É outra vez natal!
Numa ladainha ensurdecedora de rimas emparelhadas, que tornam imediatamente a minha sobrinha de quatro anos em prémio nobel da literatura. O animal (demasiado) insinuante, já me pareceu mais gordo, mas deduzo que tal como noventa e nove por cento da população portuguesa, deve ter começado a correr. Mal oiço,
- É outra vez natal!  
sai-me um,
- Oh caralho!
eu sei que um
- Oh caralho!
pode não ficar bem aqui, mas
- Oh caralho
foi o que me saiu, seguido do pensamento
- Ainda não comprei nada.
Numa manobra arriscada, fui a um centro comercial, saí vivo, mas não ileso. Elaborei um plano, para não coincidir com toda a gente,
Oh caralho!
Falhou. E gente aos magotes. Eu detesto gente aos magotes, e eu no magote de gente portanto a detestar-me.
Gosto mais de pessoas. O meu natal são pessoas, e essas não aos magotes, são raras e únicas e porque únicas: faltam-me. Faltam-me pessoas no presépio. Talvez que para o ano convide o animal, porque parece que,
- É festa total!
Seja lá o que isso for.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Dia 104

O médico estava na secretária, calado, tapado pelas folhas dos exames, só lhe via os dedos gordos, com uma aliança a estrangular-lhe o anelar esquerdo, e um anel de curso (julgo que de curso) garboso, no mindinho direito.
- É grave doutor?
Silenciou-se ainda mais, num franzir de testa que me pôs ansioso. Não era simpático. Bem, não era simpático, na bitola que baliza as pessoas que não doutores, porque a simpatia dos doutores não se mede pela do homem comum. Um pequeno sorriso de um doutor, vale o mesmo que mil sorrisos da gente.
- Pois é amigo Ferreira.
Disse simpaticamente (simpaticamente?)
- O meu amigo está com que idade?
- Oitenta senhor doutor.
- Pois é, pois é… Já é um bocadinho.
Permaneceu calado mais um pedaço, com os exames da cabeça para cá e para lá, a virá-los para cima e para baixo numa caixa de luz branca. Para mim pode dizer seja o que for, que tenho a certeza que é da cabeça, as análises ao sangue bem, as tensões bem também, para mim a mesma doença da cabeça que o meu pai. De repente apagou-se no sofá, com os olhos muito abertos a fixar sabe-se lá o quê, deixou de falar, e assim durante anos, até nos ligarem do lar, a dizer que se foi. Lembro-me que no início, sem perceber bem que raio lhe sucedia, lhe perguntava
- Como se sente paizinho?
Ele ficava ali parado que tempos, de olhos arregalados para mim…
- Pois é senhor Ferreira
Voltou de repente o médico
- Como se sente?
- Bem senhor doutor, como explicar, sinto-me longe.
E era isso que dizia o paizinho, de olhos arregalados e desconhecidos de mim, a cortar um silêncio longo,
- Sinto-me longe.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Dia 103

Não sou muito letrado. Quando mais novo, os meus pais derivado ao dinheiro a fazer-se curto, mandaram-me para a padaria do Abílio e no Abílio até hoje. Fiquei-me pelo nono ano. Mas amanho-me bem com as contas da farinha e do fermento e sou eu que preencho as papeladas para o Abílio. Não sou muito endinheirado. O pão cada vez sai menos, mesmo com as artimanhas do Abílio a subtrair farinha e sal ao pão, não me consegue pagar grande coisa, às vezes nem paga, tenho-lhe afecto e não reclamo. Mas estou eu para aqui a falar sozinho, e ainda não sei nada de ti. Que leste o anúncio já sei, dado que os dois aqui. Sei que também o nono ano, que não endinheirada. Parece-me que bem um para o outro. Não mencionei este jeitinho na perna, porque me pareceu irrelevante, e mais palavras no anúncio mais dinheiro, sabes como é. Já umas dezenas deles e só tu apareceste. Da calvície também não falei derivado àquela coisa: é dos carecas que elas gostam mais. Tirando o que me falta (o dinheiro, a escola, uns centímetros na perna, o cabelo), tenho tudo para gostares de mim. Pareces-me bem, gosto desse teu ar poético e meio distante, de quem está aqui e não está, se calhar por essa capacidade (que também não mencionaste) de um olho focado em mim e outro três mesas ao lado.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Dia 102

" Fueron tantos los que faltaron, que si falta un mas, no cabe."
Macedonio Fernández, escritor Argentino.

Foste embora há tanto tempo, que não sei medir quanto, dois, três anos, sete, oito, vinte?
Foste embora há tanto tempo, e eu ainda te sinto em casa. Estás lá sempre no lugar vazio que ocupas. Temo que me tomem por maluco. Não estou. Chego a casa e estás lá no lugar que faltas, ao canto do sofá sob o candeeiro de pé.
A saudade cabe toda em nós. A falta extravasa-nos , ocupa mais do que somos.
Não me faltes portanto nem mais um bocadinho, sob pena de não caberes no vazio imenso que a tua falta me ocupa.
Falta-me menos, porque prefiro saudades de ti.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Dia 101

Farta de tudo. Há anos que farta de tudo. Emprego nenhum, apesar de várias e repetidas tentativas, apesar do diploma, caríssimo, enrolado no tubo de metal, a perder o dourado na estante.
O meu pai, uma pressão tremenda,
- Faz-te à vida.
A minha mãe, sempre a doçura e delicadeza de o ser, queixa nenhuma, amargo nenhum.
Farta de tudo.
Refeições eternas, porque mudas, os três na mesa e o tecto da cozinha, já não tecto, uma placa de chumbo a esmagar-nos a alma.
De repente o meu pai,
- Preguiçosa é o que tu és, faz-te à vida.
E eu a odiar-lhe o bigode, ainda com pingos de sopa, a impressão que o bigode a falar,
-Faz-te à vida.
Bigode injusto e ignorante das minhas tentativas. O quadro portanto negro e ainda por cima mal pintado.
Num destes duelos mudos, entrecortados somente pelas fúrias do bigode, resolvi,
- Amanhã saio de casa.
O meu pai, garfo suspenso entre o prato e a boca, decide-se pela boca e mastiga num encolher de ombros. A minha mãe, bem se sabe, fez o que qualquer mãe faria.
Saí vadia pela cidade, manhã cedo, no fresco ensolarado de outono. As pernas pediam para fugir. A cabeça pedia para fugir, na certeza absoluta, descubro agora vendo de longe, na certeza absoluta de querer chegar, fosse onde fosse, chegar. Chegar só. E quando à saída de casa me despedi dos meus pais, no encosto de bochecha ao meu pai, que era o máximo da ternura a que se permitia, a impressão que o bigode chorava. A certeza que o bigode chorava.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Dia 100 dignidade

Sentei-me na esplanada, meio da manhã, o céu um capacete cinzento a atordoar-me a cabeça.
- Um café de saco por favor.
A esplanada completamente deserta. Reparo que não deserta afinal, está na última mesa um homem só, parece que o reconheço, corpo meio debruçado sobre a mesa vazia, olha-me de cabeça baixa. Finjo ignorar. Passados segundos levanta-se, vejo-o na minha direcção pela esquina do olho, ao chegar mais perto, num andar vagaroso,
- O doutor não tem um “eurinho” para um café, é que já perguntei ao paizinho e ele hoje não tem.
Digo-lhe,
- Não mas se quiser tomar um café faça o favor de pedir.
Reconheci-o, é um homem de sessenta e poucos anos, que desde miúdo conheço das cercanias da loja do meu pai, e que já desde o escudo pedia para café, e já agora um cigarrinho também.
O homem não sei se surpreendido pela minha oferta, senta-se na mesa.
É um homem normal, evidência nenhuma de pedinte, mas de andar vagaroso e cansado, olhos que não dizem coisa nenhuma, espécie de muro de sofrimento.
Nos segundos, poucos, em que me levanto para pedir,
- Outro café de saco por favor
rouba-me um cigarro do maço que estava na mesa, as mãos pequenas denunciam-lhe o furto, porque o filtro do cigarro a espreitar da mão fechada. Fingi não ver, na solidariedade fraterna de toxicodependente.
-Este tempo faz-me mal, este céu de chumbo, este calor.
Todo ele depressão profunda,
- Reformaram-me aos vinte e oito anos, reforma de duzentos e tal euros.
Discorreu, bem falante, sobre o estado do pais, da europa e do mundo. Ainda que vivo, eu ainda não tinha percebido o que o matara.
- E sabe doutor, o que me fodeu foi Nampula, isso é que me fodeu.
Pensei que a ele e a centenas de milhares de portugueses.
Agora quando o vejo pago-lhe um café e dois cigarros para o caminho, por conta do Estado e da Liga dos Combatentes.  

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Dia 99

Como te conhecia há pouco tempo, portanto em fase de ganhar pontos na tua admiração, aceitei uma tarde de compras a dois. Para mim um recém namoro apaixonado e inesperado. Inesperado no sentido de a tua secretária ao lado da minha lá no serviço, e nunca sequer mais que um olá, circunstancial e simpático. Nunca atrevido ou insinuante como na televisão, daqueles que respingam sensualidade e antecedem um

- Queres jantar em minha casa na sexta?

Sucede que num dia de azáfama maior lá no serviço, o teu saca agrafos encrava e tu pedes o meu de empréstimo (o meu é daqueles que tem o meu nome escrito num papelinho colado com fita cola, que aqui no trabalho já se sabe, tudo desaparece), acto contínuo, o teu perfume entra por mim dentro com semelhante força que reparo que tu, respingando sensualidade, atiras

- Queres jantar em minha casa na sexta?
Começamos então a namorar e logo no sábado seguinte, dizes-me que precisas de ver umas coisinhas lá no centro comercial

- Umas nicas de nada.

Eu inocente fui. Fui, mas nunca mais vou! Que para mim

- Umas nicas de nada
não demoram sete horas a escolher, num entra e sai furioso das lojas, a cobiçar o que outras estão a experimentar, eu sem saber sequer o que procuravas. Enfim, resumiu-se esta eternidade a um pacote de elásticos para o cabelo (de cores variadas, mas só usas os pretos) e a um pijama com gatinhos (camisola e calça comprida) que contradiz o teu sorriso sensual. Portanto na segunda-feira quero o saca agrafos na minha secretária, se é que ainda o tens, e nunca mais me sorrias a respingar seja o que for. Percebeste?

 

 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Dia 98

Andava só pelas ruas, gostava de redescobrir a cidade e os caminhos de quando pequeno. Normalmente sem destino, repetia o pisar dos quadrados brancos do passeio, evitando os mais escuros. Quando o passeio mais antigo, feito de lajes de granito, bonitas e gastas do tempo, evitava pisar a linha que as unia. Nos dias de melhor disposição, trazia as mãos nos bolsos e um assobio nos lábios, e lembrava-se de quando pela mão da mãe fazia aqueles mesmos caminhos, e de como a consumia a calcar os quadrados brancos e a evitar os escuros, a evitar as linhas, a chutar pedras,

 Raça do rapaz, despacha-te que perdemos o autocarro!

Nesse tempo uma certeza de nunca morrer. Absoluta e definitiva.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Dia 97


Esta solidão toda. Parada, quieta, fez-me falta quando mais novo, mas para que me serve agora? Quero dormir só e ler só, mais nada, todo o outro tempo do dia quero movimento, conversa, alegria, passeio. Os amigos que tinha, quase todos fora deste mundo. Agora começo a gostar de conhecer as pessoas aqui do lar, saber-lhes o nome, a vida, os gestos, os trejeitos, as manias. Das maleitas gosto pouco, não suporto queixumes. Gosto de ouvir o: vamos andando, vamos indo, vai-se teimando, e logo a seguir sacar de um baralho de cartas e começar uma sueca, sem mais relambório de coitadinho. As mulheres são piores, desfiam o rosário com mais pormenor e paciência, não se ouvem umas às outras, numa roda de quatro e cada uma por si, elencam o rol de doenças, e passam a tarde de pés na escalfeta, a esgrimir varizes com pedras na vesícula, joanetes com bicos de papagaio e até úlceras com cancros na próstata. Algumas afirmam mesmo que já a tiraram, a próstata não a úlcera, imaginem. Nenhuma me cativa a atenção, são todas viúvas e carregam o passado com elas todos os dias, desde o preto da roupa à aliança do falecido pendurada no fio de ouro ao peito, carregam como mulas o passado inteiro, e trazem-no para a coversa todos os dias: o meu marido assim, o teu assado, eu dantes isto e tu aquilo. Nós homens, temos mais pudor na expressão dos sentimentos. Eu vivo menos bem, mas ainda assim bem, sem ti. Estás sempe comigo, trago-te como uma espécie de poema, que recito para mim todos os dias, principalmente quando vejo a beleza do mundo. Foste tu que me ensinaste a beleza do mundo, enquanto eu me matava a pensar que vivia. E olha que me tem dado jeito para aguentar esta antecâmara da morte.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Dia 96


Com que ternura olham os teu olhos. Que meiguice lhes descubro quando os vejo. Vontade nenhuma de fechar os meus. Mantê-los abertos sempre e continuar a descobrir essa ternura que o amor adoça. Os olhos dizem coisas, falam como boca aos olhos da gente. Por isso quando me olhas, eu ouço facilmente, com o ouvido da alma, o que a tua alma sente.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Dia 95


Palavra de honra que dava um bracinho, o direito não, talvez o esquerdo, se bem que bracinho é capaz de ser exagerado, um dedo, pode ser um mindinho, para ter essa tua insuportável serenidade de te arranjares para sair, quando eu já pronto no sofá a bufar fúrias pelo cigarro, vou maldizendo a minha sorte. Dava um mindinho, para ter a tua calma eucarística parecida com a dos ministros de Deus, que depois de bebido o sangue, passam com o guardanapo no cálice que tempos, indiferentes ao rebanho de joelhos, ansioso por se erguer, na tranquilidade sagrada de uma vaca na Índia. Normalmente tu no duche primeiro, inocência minha, para te despachares mais depressa, eu a seguir, mas rapidamente te ultrapasso no espelho da barba, onde ficas horas a tentar compor o enrodilhado do rosto, na esperança de regredires até ao rosto daquela fotografia de quando tu vinte anos. Não te censuro, envelhecer é dramático. Gosto bem de ti assim, velha e calma, mas não te acalmes de mais, porque morro dos nervos da tua calma.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dia de quatro

A violência maior de um governo não é atirar polícias contra multidões, esta é grave, mas a maior e mais grave é a que esmaga multidões sem sequer precisar de bastões. A violência maior de um governo é a forma desumana com que tritura a maioria do seu povo. Manipulados ou ao serviço de entidades obscuras, cortam salários, aumentam impostos, esquartejam serviços, desmontam organizações, separam famílias, fomentam a guerra entre função pública e privados, entre pensionistas e trabalhadores no activo, entre alunos e professores. Viram a gente contra a gente.
A nau dos loucos navega para o desastre chamando-nos loucos a nós. Não navega à vista nem à deriva, navega com a certeza de afundar. Este cabo das tormentas nunca será da boa esperança. Portugal tem os braços cansados e está de gatas. Convoquemos a alma, porque essa, pelo menos, não tem cú.

 

 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Dia 94

A tua mãe cá em casa. De manhã oiço-lhe o arrastar dos chinelos para a casa de banho, depois a descarga do autoclismo, e lá sai ela de camisa de noite e roupão branco, em passos curtos e cansados numa dignidade curvada de Papa. Segue para a cozinha na intenção gulosa do pão com manteiga embebido na cevada. Mal nos vê pelo canto dos óculos,

- Hoje não cerrei olho!

Enumerando em seguida todas as maleitas de que padece, num encadeado de ai Jesus, Senhor pai santo, Virgem santíssima, alternado por migalhas, cevada com manteiga a boiar, e a placa a teimar em sair-lhe da boca necessitada da cola que a segura às gengivas.

Diz que não cerra olho noite nenhuma, mas ronca em todas elas, naquele inspirar cavernoso que depois expele em assobio.

Sempre admirei pessoas idosas, gosto da tua mãe aqui, e dado que a minha nem sequer tempo teve de usar placa, comprei-lhe uma flor para o dia da mãe, porque a tua mãe há só uma.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Dia 93

Tem dias que te vestes de cinzento, com a alma de fato escuro e puído. Não admites sequer uma florzinha na lapela. Parece que a morte te visita e te atira para o sofá com uma manta de mortalha. Quando assim é, anoiteces tudo à volta. Eu sei que a morte nos visita sem avisar e muitas vezes se senta à mesa connosco. Por isso nesses dias não comes, mas fumas para te alimentares na exacta e exagerada proporção com que ela te suga as forças. Hoje mora contigo, por isso, tem dias, tem dias não, todos os dias te visto de cores de céu e a alma de cores da terra. Admites-te um florzinha na lapela, apesar dos meus olhos de mar.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Dia 92


Oito dias e faço sessenta anos. Oito dias e não faço ideia de como sessenta anos, dado que em mim, uns dias cinco, seis anos, outros vinte, vinte e um, outros há (poucos, muito poucos) que oitenta e seis. E portanto como em mim a cabeça mais jovem não entendo como daqui a oito dias sessenta anos. É verdade que de manhã no espelho da barba, (aquele que lá aparece não sou eu) se notam os vincos na cara, os papos dos olhos, os parêntesis da boca mais profundos, por isso faço a barba no espelho embaciado que recuso limpar, e portanto uma nuvem esconde-me de mim (se é que sou eu). Para não haver confusões parti outro dia o espelho da entrada para não me ver (se for verdade que aquele velho sou eu, o que não me parece), o espelho do elevador também se partiu (o parti), e como administro o condomínio consegui convencer as senhoras idosas, todas com mais de sessenta anos, que a despesa em limpa vidros era insustentável e que as pensões nem para comer davam, quanto mais para luxos de espelhos no elevador. Ficam-me a faltar os retrovisores do automóvel, mas a esses nada posso fazer, mesmo assim para evitar que acidentalmente o gajo que se cruza comigo na casa de banho apareça, passei o domingo inteiro a ajeitá-los, de modo que julgo que nunca mais o (me?) vejo. Dizia portanto que daqui a oito dias sessenta anos, e com os espelhos reduzidos a cacos, só me inquieta o facto, de que se for atropelado hoje, amanhã no jornal,
“ Homem atropelado na estrada de Benfica”
se atropelado daqui a oito dias,
“Sexagenário atropelado na estrada de Benfica”.
Só isso me aborrece, o resto está tudo tratado.
                                                                  

quarta-feira, 6 de março de 2013

Dia 91


Que nervos, este barulho irrita-me. Entro todos os dias no carro e a determinada altura começa este,
- Tic tic tic
é que é todos os dias Carminho, todos.
- Carlos...
Ainda outro dia fui buscar a tua mãe à calista e isto,
- Tic tic tic
e eu,
- Ouve isto Dolores?
mas a tua mãe, um penedo de ouvido,
- Ãhn?
E desisti.
- Carlos eu...
 Repara, não é sempre, é só em determinadas alturas isto,
- Tic tic tic
depois pára uns segundos e volta o,
- Tic tic tic
Consegues ouvir Carminho?
- Não Carlos não consigo. E pedi-te para sairmos de casa para conversar porque temos coisas sérias para tratar.
Olha agora, ouviste?
-Não.
Escuta, cá está ele,
- Tic tic tic
pára uns segundos e
- Tic tic tic.
- Eu sei que não tem sido fácil Carlos, mas o nosso casamento terminou, já estamos separados há meses, e eu gostava muito de ir à Índia com o meu mestre de Reiki, queira pedir-te se ficavas com os meninos dois ou três meses.
Escuta. Agora ouve-se bem o,
- Tic tic tic
Ouviste?
-Não Carlos, não ouvi o
 tic tic tic,
o que eu ouvi foi
 crack!
Pois, mas isso foi qualquer coisa que se partiu cá dentro. Cá dentro parece-me que o coração,
- Crack!
O carro é que
- Tic tic tic,
Ouviste?



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Dia 90


Uma vontade de paz, uma vontade de sair dos círculos concêntricos das tuas neuroses. Há alturas em que pareces de loiça, tenho que te amparar em plásticos de bolhinhas de ar e de esferovite, e transportar-te em caixotes de paciência com setas de frágil apontadas para cima. Mas ainda assim, como gosto de ti. Vidas de paciência que perdi dentro de uma só vida. Mas não te trocava por nada. Ainda que com oitenta e dois anos, as tuas birras são de vinte, eu, ainda que com oitenta e três, irrito-me como com trinta. E nisto uma vida inteira, não me importava de duas vidas inteiras. Agora na cabeça, uma doença de esquecer, esqueço-me até do neto que está para aqui a escrever, foge-me o nome por debaixo da língua, mas nomes esquece toda a gente, o amor não esquece nada, e quando tudo em mim escapar da língua, não esqueçam,
- Olhem-me com o amor dos olhos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Dia 89


A noite bate-me nas costas como um sopapo de mão gorda. Afocinho de cabeça no mundo, fica-me a boca cheia de terra. É sempre assim, a gente a ver a maravilha do sol sobre o mar e lentamente a terra a subir, não o sol a descer, a terra a subir, lentamente a terra a subir. Quando de pés na areia a entrar no mar, reencontro-me contigo. É aí que te sinto. É aí que reaprendo a nadar. Não sei explicar. A minha mãe é água. É aí que sinto que me abraça. E de repente a noite traiçoeira, nas costas, a roubar-me os poucos minutos do último sol a tapar-se de terra. Os melhores minutos do mundo, poucos, como tudo o que é melhor, escassos, como tudo o que é sublime. Mas pelo menos a noite assegura-me esses momentos, porque o mundo não sobreviveria sem ela, nesse tempo de equilíbrio, em que parece que pára, para fazer sair o dia e deixar entrar a noite, neste lado da terra, neste lado de mim.