sexta-feira, 8 de abril de 2016

Dia 119



A velhice começou-me pela barba. Embora o avanço da testa cabeça dentro a denunciasse, a velhice começou-me pela barba. A avó no natal à cabeceira da mesa, no conforto da lareira nas costas, eu na cabeceira oposta, lugar conquistado pelas crianças a fazerem-se gente, saídas do frio da copa para ascender ao olimpo familiar. A avó de longe a olhar-me com os seu olhos espiões, e eu atento ao murmúrio dos lábios,

- Coitadinho, o que lhe foi acontecer

Uma tia cúmplice ao lado, meio indignada,

- Coitadinho porquê mamã?

Ela

- Já tem brancas na barba

Sorrio-lhe, sorri-lhe sempre, quando chegava,

- Olá Fernandinha

Ela

- Ó Santiaguinho

Abraçava-a e ela desaparecia, um concentrado de avó, como uma bisnaguinha de tomate. Tinha olhos espiões, alma de crítico de cinema e língua afiada de cronista social. Eu gostava tanto dela e nunca lhe disse que gostava tanto dela. Consola-me a certeza de que o sabia, o meu amor não escaparia aos seus olhos lupa, o dela, não escapou aos meus.