A velhice começou-me pela barba. Embora o avanço da
testa cabeça dentro a denunciasse, a velhice começou-me pela barba. A avó no
natal à cabeceira da mesa, no conforto da lareira nas costas, eu na cabeceira
oposta, lugar conquistado pelas crianças a fazerem-se gente, saídas do frio da
copa para ascender ao olimpo familiar. A avó de longe a olhar-me com os seu
olhos espiões, e eu atento ao murmúrio dos lábios,
- Coitadinho, o que lhe foi acontecer
Uma tia cúmplice ao lado, meio indignada,
- Coitadinho porquê mamã?
Ela
- Já tem brancas na barba
Sorrio-lhe, sorri-lhe sempre, quando chegava,
- Olá Fernandinha
Ela
- Ó Santiaguinho
Abraçava-a e ela desaparecia, um concentrado de avó,
como uma bisnaguinha de tomate. Tinha olhos espiões, alma de crítico de cinema
e língua afiada de cronista social. Eu gostava tanto dela e nunca lhe disse que
gostava tanto dela. Consola-me a certeza de que o sabia, o meu amor não
escaparia aos seus olhos lupa, o dela, não escapou aos meus.