O vestido era verde. Dei fé que
era verde, apesar de pertencer à franja de gente que vive no inconseguimento de
distinguir as cores. Mas alguém com visibilidade reduzida de coloração tem as
suas manhas, e intuí ao entrar pela porta da garagem (tu na soleira da porta de
casa) que o vestido rimava em cor com as folhas da trepadeira de cenário atrás
de ti.
Eras tu mais vinte anos, que
sorriso novo de tão antigo. Vinte anos embalsamado, vertido agora em verde, cor
que os daltónicos detestam, não por ser feia, mas por nem sempre lhe saberem o
nome, às vezes castanho, às vezes laranja, outras cinzento esverdeado. Subi
então vinte anos de escadas (mais ou menos seis degraus), tu ao cimo, verde,
quieta, sorriso como o último, lindo, tanto nos lábios como nos olhos (impressionante
como sorriem os olhos) há tanto que os meus procuravam os teus. E parece-me que
o contrário verdade também.
Vinte anos num abraço terno,
beijo lento de bochecha, demorado, intenso, meigo. Depois, um gin tónico para
descomplicar e amolecer a sofreguidão de anos de coisas por dizer. Como a paixão
é prosa curta, calamo-nos e resumimo-nos num beijo, esse já não de bochecha, um
beijo de nós inteiros, lábios nos lábios, prenúncio da prosa longa que é amar.