Quando estavas doente, beijava-te a testa, e ficava lá uns segundinhos de lábios encostados a inspirar-te para dentro de mim, na esperança de que o teu cheiro morasse aqui para sempre. Engano meu, o cheiro só se recorda se cheirado. E o facto de já cá não andares expõe-me à brutalidade do facto de que não mais o sentirei, e pior ainda, não mais me lembrarei dele, apesar de estar aqui todo dentro de mim.
No entanto, hoje entraste-me pelo nariz, não sei se de um perfume de quem passava, ou de umas flores, ou de um cigarro, ou de tudo misturado, centenas de cheiros misturados. Sei que me entraste pelo nariz. Infelizmente não era a ti a que cheirava, era só um grão de pó da nuvem imensa que eras.Por isso te digo que me entraste pelo nariz e me ficaste na cabeça, não como uma sensação boa de ter recordado o teu cheiro, mas como uma sensação má, de nunca mais o voltar a sentir.