sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Dia 67

Quando estavas doente, beijava-te a testa, e ficava lá uns segundinhos de lábios encostados a inspirar-te para dentro de mim, na esperança de que o teu cheiro morasse aqui para sempre. Engano meu, o cheiro só se recorda se cheirado. E o facto de já cá não andares expõe-me à brutalidade do facto de que não mais o sentirei, e pior ainda, não mais me lembrarei dele, apesar de estar aqui todo dentro de mim.
No entanto, hoje entraste-me pelo nariz, não sei se de um perfume de quem passava, ou de umas flores, ou de um cigarro, ou de tudo misturado, centenas de cheiros misturados. Sei que me entraste pelo nariz. Infelizmente não era a ti a que cheirava, era só um grão de pó da nuvem imensa que eras.
Por isso te digo que me entraste pelo nariz e me ficaste na cabeça, não como uma sensação boa de ter recordado o teu cheiro, mas como uma sensação má, de nunca mais o voltar a sentir.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Dia 66


Este céu de cimento. Dá ideia de que mil anjos trolhas a chapar massa por cima de nós. Nuvens andaimes, com anjinhos de cigarro na boca, vasilhames de cerveja e um rádio a gritar um refrão fácil, logo, irritante.
Este céu de cimento por cima de nós, bem por cima do sofá.
Este céu de cimento cinzento que nos não permite uma palavra de ternura, tenho-a aqui debaixo da língua, mas este cimento cola. São as palavras todas que não te disse. Todas as palavras amargas: de tristeza, de raiva, de irritação, de angústia, de frustração. Todas juntas são este cimento.
Aposto que tu igual. Mas este céu...
Já fomos a Paris a fugir dele, mas veio connosco, sofá e tudo.
Depois o filho não veio, e deixaste de me procurar o pé debaixo dos lençóis.
Não sabes, mas hoje apetece-me. Mas este céu não me permite nem uma mão no joelho, no teu joelho, por onde começaram quase todas as minhas tentativas, conseguidas, de te ter.
E agora ainda podemos conseguir, sou tua mulher, parece-me querer-te sempre mais, apesar de tu cada vez menos. Escondes-te atrás do cigarro, das notícias, do telefone, do arroz está cru, da sopa insossa.
Essa irritação contida, furiosa, é ferrugem a desfazer-te.
Dá um berro homem, grita, esmurra, sangra, chora, mas por favor: rebenta com este céu de cimento!

domingo, 4 de dezembro de 2011

Dia 65


Parecia fácil, a gente chegava ali, falávamos um bocado, melhor, falavas tu, que eu só tinha que ouvir, que gostava de ti já tu sabias, e pronto, como gente adulta despedíamo-nos  com dois beijos de bochecha, que a língua já não era para ali chamada e pronto.
Supostamente aquilo acabava por minha causa dado que tu é que tinhas queixas a fazer à gerência e ainda alguns apontamentos no livro de reclamações, para que outras que viessem não caíssem no engodo do meu mau serviço. Entenda-se mau serviço, por uma série de falhas imperdoáveis da minha parte, tais como, usar lenços de pano, ter pêlos nos ouvidos, criar bolas de cotão no umbigo e gostar de fazer paciências de cartas, e não o “mau serviço” que parece associado a práticas carnais de que não me gabo, mas que julgo suficientemente prazerosas dado que nessas alturas tornavas-te até mais mística, gritando repetidos, ai meu Deus, e vários, amo-te muito, soprados ao ouvido.
Parecia fácil mas não foi. E não culpa minha. Devia ter sido fácil. Mas sabes que vestir a pele de adolescente quase com quarenta anos,  é como comer bolinhos de bacalhau, corres sempre o risco de te aparecerem espinhas.
Espero que estejas bem, e aconselho-te a não comprares cremes anti-borbulhas, porque só desaparecem com a idade.
Eu estou bem, estou a fazer tranças com os pêlos dos ouvidos, para no próximo carnaval ir de Astérix. E sabes, estar sozinho é óptimo para fazer paciências.