segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Dia 15

Lembro-me de te conhecer, num dia comum, numa noite comum, num excesso de copos e fumo perfeitamente comuns. Lembro-me de chegares, e de te achar normal, se bem que o teu olhar caiu no meu mais do que é comum, três, quatro segundos… Será nesses segundos que duas almas se reconhecem? Para nós parece que foi…
E naquela roda de amigos, entre todos os exageros comuns, ficamos só os dois, a comungar o olhar, sós, com toda a gente à volta!
Levei-te a casa, e eu tão bem assim! Ainda no carro, um adeus e um cigarro, e um poema de Jobim…

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Dia 14


E todo o amor de agora, amor como nunca fiz nem senti, se explicou assim na minha cabeça. Entre o mar e a casa... O rádio dormiu...Explicou-se assim:

Era pele, era cabelo, era perfume,
Era sentir saliva tua em mim!
Eram lençóis e roupas espalhadas,
Era estarmos os dois todos ali!
Era um estar pleno e quase etéreo...
Um estar definitivo um estar para sempre.
As tuas mãos todas em mim e por todo o meu
As minhas agarrando todo o teu,
Corpo que dançava sobre e sob mim.
Um prazer de sentir tão brutal!
Sentir passar-se quase a animal!
Querer morrer ali naquela hora...
Não sair mais da cama fora,
Porque está ali tudo no colchão,
Pés nos pés mão na mão,
Coxas que colam,
Braços se enrolam,
O tempo pára ali mais que uma vida.
O minuto passa a hora,
e eterno, demora, suspenso naquela paixão.
E um segundo pára a vida no meio daquele colchão.
O relógio pára a corda!
Não interessa quem me acorda,
Que eu acordar não quero não!
Quero morrer naquele segundo!
Onde o amor não respira,
Quando somos só nós e o mundo!
Sentir todo o bem que já vivi,
Suster todo o amor que há em mim,
E no passar do segundo,
Suspenso dentro de ti,
Já não há outro mundo.
Só tu suspensa em mim...
E posso então morrer aqui,
E posso então morrer assim!
                                                                        

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Dia 13


Regressar a casa ao domingo... Aquele silêncio no carro, as nossas cabeças na segunda-feira... Nos horários, na obrigação...
Mas ainda é domingo! E fazes-me um mimo na cara, e desaparece a segunda-feira, falamos de nós sem compromisso, apenas o de estarmos juntos e gostarmos de estar assim.
Sem percebermos vamos desenhando o futuro, que começa já amanhã, porque é assim a força da paixão, sempre a desejar um pouco mais do que já existe. Sempre a inventar uma vida que julgamos melhor, mas que pode não o ser. O melhor pode ser o agora...
Calo-me e imagino que o melhor é este exacto minuto, em que tudo bate certo, e temo perdê-lo na ânsia do que julgamos ser melhor...
Desejo em silêncio que se prolongue, esqueço o bom que poderá vir e gozo o bom que é o agora.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Dia 12


O hotel até era bom, levantar-me domingo em frente ao mar, ainda melhor! Acordo sempre antes de ti... Parece que quero pôr ordem no mundo antes de acordares...Fazê-lo mais redondo e perfeito... Como se isso fosse possível!
Estou apaixonado por ti, disso estou seguro! Agora todo o resto de mim é incerteza, todo o passado é “museu” e está lá para ser visto e revisitado.
O meu presente sou eu e vais sendo também tu!
É certo que passou, mas certo também é que custa a passar! 
Tarefa para as nossas vidas, tirar todo o passado que atrapalha o presente, e do presente fazermos futuro. Isso é o que quero, e sei que o queres também.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Dia 11

Só perto do mar me sinto assim, puto de pele morena e joelho esfolado, com o salitre a repuxar a pele, feliz tanto no mar como na areia.
Ao teu lado sou o mesmo puto.
O mesmo que descia estas dunas a correr e entrava na areia e entrava no mar, e me sentia feliz, genuinamente feliz, na areia e no mar, areia que comia e mar que bebia.
A mãe na barraca, à sombra, que o aumentar da idade já lhe diminuía a saúde, e a minha fome depois do banho, o pão com manteiga, dois , três, e mãe posso ir ao banho, não filho e a digestão, e amuar atrás do pára-vento e depois vêm os tios com a bola e já não apetece banho. Vai tu à baliza, e eu na baliza, sete passos, dois montes de areia, eu pequeno a sentir-me grande, a voar centímetros maiores que os metros do Yashin o "aranha-negra". Os meus tios todos Eusébios e Pélés, remates potentes e com efeito que eu ia defendendo como não sabia, a comer areia e a suar feliz!
Depois a casa da avó na praia, mangueiradas para tirar a areia, e um banho quente nas mãos de veludo da mãe, e pega na bicicleta e conquista o passeio, e outras crianças e outras bicicletas, a fazerem corridas e a fazerem-se felizes, porque sempre tivemos tempo livre para inventar e criar.
Assim quero contigo, tempo para inventar e criar, e fazermo-nos felizes.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Dia 10


Passamos a manhã a fazer que fazíamos, tu de um lado para o outro, eu no sofá a fazer palavras cruzadas ainda virgens de letras, e a ver-te de um lado para o outro por cima do jornal.
 O que me fascina esta habilidade para a vida que têm as mulheres! Hábeis na forma e no conteúdo.
Eu aconchego-me ao sofá desejoso de não me vestir e ela atira, vamos dar uma volta? Olhei-a de lado, ela sorriu, como me apetecia dar uma volta!
Carro na estrada a correr para o mar, rádio sem vida. Arrisco uma estação de música alternativa, a pensar agradar... Em menos de um segundo pediu para mudar, e agride-me logo um hip-hop fanhoso desses americanos, cheios de correntes de ouro e camisolas de basquetebol! Suspiro e ela nota, eu tento convencer-me que é da idade e temo que ela também.
Rodo a chave, e fica só o mar, aquele mar todo à nossa frente, e um sol lindo de inverno a brilhar num verão do outro lado do mundo.
O sol a querer ficar e a terra a querer subir, entre estes dois quereres, vai-se extinguindo a luz... Para ti, que lindo pôr do sol, para mim, que linda a terra a subir....

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Dia 9


Acordei todo suado, ela abraçada a mim, cabeça dela, peito meu, como um médico que ausculta sem estetoscópio, e adormeceu no respirar do paciente. Tenho pêlos brancos no peito. Fico horas a olhar para o tecto, ela dorme. Não me lembro de me sentir assim acompanhado na cama mesmo quando casado. Olho para ti e orgulho-me de mim.
Infelizmente não tenho camisolas nem meias de lã grossas para te emprestar, como nos filmes, mas tenho um pijama mais apertado que te fica tão bem...
Temos dois dias para nós, sábado e domingo e nenhuma obrigação de casal, temos o tempo todo limpo à nossa frente. Arranjei o relógio mas parece que já não me faz falta.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Dia 8


Pedimos comida, depois de termos conversado e beijado atrapalhadamente, na ânsia de contarmos tudo de nós rapidamente e recuperarmos tantos anos gastos com outras vidas. Não perdidos, gastos! A Sara ficou surpreendida por não ter dado gorjeta ao miúdo da pizza, mas como princípio nunca dou... por momentos senti-me inseguro e desconfortável, ainda nos conhecemos tão mal que qualquer atrito precisa de ser explicado.
Comemos sentados no chão, porque ainda não tenho mesa e cadeiras, e o tempo foi curto para tudo o que queríamos falar e para todos os beijos que queríamos dar. Ela tem menos quinze anos que eu, e isso pairou em mim todo o tempo, como é que uma mulher assim se interessa por alguém como eu? Passei todo o tempo a encolher a barriga e a desejar ter cortado os pêlos dos ouvidos, principalmente quando a língua dela passava por lá.
Ficamos deitados na sala a ouvir uma música velha no meu velho prato de vinil, e falamos a olhar para o tecto durante horas, de mãos dadas, corpos meios nus de tanto amor e quentes de tanto afecto.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Dia 7


E assim fiquei nesta merda toda a tarde, às voltas no sofá com um cobertor de “mortalha”, onde me enrolava com preguiça...
E aquele tempo todo de liberdade que me impedia de mexer, porque quando o temos assim, estamos constantemente a adiar. Assim adormeci, e sonhei que era novo e usava calças de linho e um chapéu de palhinha, numa altura em que fumar não fazia mal e se matava a sede com cerveja... Acordo de repente com um terramoto localizado a um braço esticado de mim, o telemóvel na mesa à frente do sofá a vibrar furiosamente como se adivinhasse a urgência de quem me ligava. Era a Sara, voz doce e soprada que me arrepiava no ouvido – Posso passar aí? Claro disse eu, ainda a pensar se tinha tempo de um banho e a dizer mal do eu preguiçoso que não comprou boxers nem vinho e não tem nenhuma camisa desportiva para usar por fora das calças...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dia 6


Ai, a preguiça toma conta de mim e não me apetece trabalhar, nem levantar da cama, fico nesta modorra toda a manhã e depois saio para comer qualquer coisa. A casa ficou confortável, só saio para comer e passar no quiosque para comprar tabaco e alguns jornais e revistas. Recebi uma mensagem da Sara. Fiquei ansioso por vê-la, não sei quando ela poderá cá vir, espero que depressa, já que esta história do divórcio me consumiu dias e dias de papelada e também horas de sono.
Preciso de ar, jantar fora com ela e deixar-me enlevar com o seu olhar, e deixar-me surpreender, e encantar, e envergonhar. Pois a Sara deixa-me assim, adolescente apaixonado com aperto na barriga se a vejo ou lhe falo.
Preciso de mandar arranjar o relógio que me sinto despido sem ele. Preciso de comprar umas roupas e vinho, sim vinho para o jantar, se ela vier. E roupa interior, que não tenho sequer umas cuecas decentes caso fique sem calças. Agora onde se compram cuecas? Não me lembro de comprar cuecas, era sempre a Inês que mas trazia.
 Já estou cansado de pensar nisto. Tanta coisa para tratar, estendo-me no sofá.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dia 5


Assim se passavam dias e eu mais confuso que perdido. Todo o tempo de quem me deixou, passou a ser tempo para mim, e desabituado de tempo, paralisado pela liberdade.
Toda a métrica da nossa vida se desfez, o meu tempo já não rima com o teu. Mas se para ti foi escolha, para mim foi imposição e fiquei desemparelhado na rima, com demasiado espaço para os teus versos. Como preencher estes espaços, de versos teus? Talvez começar nova poesia. Impossível preencher os espaços de ti com versos de mim.
Mandei entretanto fazer obras em casa (grande de mais a casa) para torná-la funcional para um só, fechei alguns quartos (julgo que eram para as crianças...), de facto lembro-me agora que querias três, três filhos de nós, ou querias três filhos só de ti, sim só de ti, falavas continuamente nesse projecto de vida a dois, três, quatro. Mas não me recordo de lá estar ou da minha contribuição para ele. E eu que até quero ter filhos, mas tu apenas queres ser mãe.
Agora segue o teu caminho, parece que o tens. Eu estou óptimo.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Dia 4


Aquilo já nem era esperança o que sentia, era a crueldade da idade a entrar-me pelos olhos dentro, a desequilibrar isto que me está dentro da cabeça não sei se cérebro, se coração, se alma, tudo em mim mexia.
A dois passos de ti era diferente. Toda a terra torta a fazer-se redonda. O desassossego no teu peito adormecia e era sossego... Que assim fosse noite e dia!
Qual esperança, o pai já nem me conhecia ou então confundia-me, com irmãos sobrinhos e amigos, cérebro a fazer-se pedra! A ocupar-lhe todo o bem que lá há, placas consolidando-se sobre a massa que cinzenta escurece, metódicas a evoluir, aleatórias por não escolherem o lugar, sobre a massa que escurece, num homem sem escolha que se perde a cada dia. Qual eutanásia! Ele não se consegue matar quanto mais pensar e exigir.
 Vai perdendo consciência de quem é e crescendo para alguém que nunca foi.  

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Dia 3


Esta casa (porque a comprei tão grande?), faz eco, mesmo em silêncio. O que faz um homem de cinquenta anos, só, nesta casa tão grande (terei pensado em filhos?), agora não adianta cá estou. Só. Mal acompanhado de mim porque não sei o que faz um homem de cinquenta anos, muito menos o que pensa (o que pensa?). Um homem de cinquenta anos. Estás um homem filho, dizia a mãe e isto quando fiz quinze anos. E agora mãe, de que me serve ser já um homem, se me apetece tudo o que tinha o eu menino e desprezo o que tenho o eu homem? Sim mãe hoje vou aí jantar.
O teu pai está na garagem filho lá na oficina, continua a arranjar sapatos, Deus me valha já nem tenho mais sapatos para ele arranjar, agora engraxa-os, pelo menos tem o que fazer. Não te ouvi mãe, já desço para a garagem. Tão bom este cheiro da casa. Olá velhote. Oh rapaz, bons olhos te vejam, estou aqui a acabar esta entrega para um cliente. Para um cliente... Pai! Já não há clientes e tu nunca foste sapateiro – pensei. Trouxeste a menina? Pai eu não tenho meninas quem tem meninas é o Chico. Ah... Olhou-me desconfiado, e o seu olhar perdeu-se de mim e do mundo, como se a demência travasse batalhas com a lucidez, e travava, ele sentia que ia sempre perdendo e neste sentir inconstante procurava o seu eixo no mundo. Isilda! Chamou. Vá meninos venham comer! Subi com o meu velho, velho e perdido e eu também a perder-me quando ele se perde.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Dia 2


   Perfeita é a forma de me olhares, nunca me olharam assim. É um olhar que não invade. Pelo contrário, envolve. Não quero mais o café e apago o cigarro. Da  janela onde estou não te sinto.
  Tenho de trabalhar e passo horas na secretária a tentar escrever aquele bilhete que um dia te entreguei em forma de reflexo de raios de sol contra o vidro do relógio. Dei-te beijinhos na cara, três, com o relógio que agora parou. Merda. Ainda assim pode dar beijinhos. Descanso. Das amarras que criei e deixei tantos amarrar. Como me cansou. Estar amarrado e a tentar rebentar cordas, uma corda que rebenta é diferente de uma corda que desata. Mas uma corda que rebenta é mais definitiva. O bilhete. Esqueci-me. No topo da página: Meu Amor, só. Uma tarde para sair este Meu amor. Como a vida me limita, porque escrevo? Esqueço o bilhete. Resolvo-me a mostrar-te alma. Não sei é como. Tanto tempo de alma amarrada e almas a amarrarem a minha, líquida e contida. Tanto tempo perdido de beijinhos. Tantos anos sem marear. Tanta vida em porto seguro que me toldava o futuro. Casado trinta anos. Trezentos da minha alma, três mil de beijinhos que não te dei...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Dia 1


Nunca tinha pensado nisso, pessoas a perceberem cores atrás de cores e eu a ver só algumas. O colibri vê mais, eu vejo até mais a preto e branco, em escalas de cinza.
De um cigarro pendurado sai fumo, também nunca tinhas pensado nisso. Pois é, não estamos sempre a pensar. Tu agora fumas. Não pensas se te faz mal. Fumo eu também e penso que não me importo. Não sei quem és. Ainda. Ainda não. Caiu a cinza no chão. Eu não me importo. Toda a cinza é chão. Ontem ouvi-te, no rádio, quando liguei o carro, sem querer o rádio, apareceste-me tu, nos ouvidos, não liguei o CD. Ouvi atento coisas estranhas que dizias para os meus ouvidos daltónicos de economia. E agora fumo contigo, entendo-te. Já perdi muito tempo a ouvir-te no rádio, e agora perco-o a ver o teu fumo. Caiu a cinza, ainda bem que no chão, que é de onde é. Se para isto nos encontramos, prefiro fumar sozinho e talvez ouvir-te no rádio. Bem melhor que ver-te fumar.
Chegou o café. Olhaste para mim, agora olhaste para mim! Disseste que virias de gola alta e lábios vermelhos. Mentiste e eu também. Eu sei quem és, eu sou este aqui ao fundo atrás das velhotas. Já te toquei três vezes na cara com o reflexo do sol no relógio. Nem olhaste. Fechaste os olhos. Já me sentei na tua mesa. Cinza, café, fumo, os dois na mesa. Três beijos de sol te dei com o reflexo do relógio. Não falamos de nada, mas ouvi-te de novo no rádio. Caiu de novo a cinza, toda a cinza é chão.