Desde pequeno quem em mim, qualquer coisa por ti. Desde pequeno um calor a subir-me e a concentrar-se na cara, um nó na garganta, um aperto no estômago. Tu não me passavas cartão. Eu, fruto da minha compleição física ficava sempre à baliza, afortunado era, podia mirar-te da linha de golo encostado a um dos postes, enquanto tu miravas o rufia que fintava tudo, distribuía pancada e marcava golos que se fartava. Às vezes,
- Vai Tó!
e como distraído, já não a apanhava a
tempo,
- Ò Tó…
A equipa de braços caídos, a dizer
que não com a cabeça, e eu só já a apanhava no fundo do recreio, quase já na
estrada, derivado à falta de redes nas balizas. Chegava suado e corado, entre
sorrisos e bocas de troça.
Foi assim até ao fim do liceu. Pelo que
sei continuaste a estudar, eu não, fiquei a ajudar o meu pai nas coisas da
pichelaria. Agora abri uma firma e pus escritório, ninguém me bate em diagnósticos
ao sifão nem à reparação de qualquer encanamento. E em mim, ainda qualquer coisa
por ti.
Há dias, eu a chegar a uma obra, e sai
um grito de um andaime,
- Ò Jóia, anda cá ao ourives!
Espreitei e tu, tu igual, linda de
fazer cair os andaimes, eu ia falar-te, mas de repente cai um,
- Vai Tó!
Não dos andaimes, na minha cabeça,
- Vai Tó!
E não te falei, com medo de já só ir
apanhar o coração no fundo do recreio, quase já na estrada, derivado da
impiedade com os guarda-redes.