Ainda não sei viver sem ti. Passo pela vida num sopro, às vezes trôpego outras de passo firme, mas sempre manco, sempre. A forma de me mostrares a vida e o mundo, ainda que algumas, em idade de não as perceber, vou-as percebendo agora. O teu sentido de justiça, honestidade, boa índole, humanidade, balizava-me a vida. Eras como uma consciência crítica de mim. Ensinaste-me o bom e o mau, o certo e o errado, o belo e o hediondo. Fazes cá falta. E custa-me falar de ti porque nada do que diga serás tu. Nenhum adjectivo, dezenas de adjectivos, te podem qualificar, não por mereceres todos, mas por seres porções diferentes de cada um, juntando a isso o amor que te tenho, tudo o que disser não serás tu.
Por isto tudo tropeço fatalmente em ti todos os dias, nem que seja só por causa daquela árvore ao fundo da nossa rua, que fica linda no Outono, e fica mãe, fica linda.
Gosto de alimentar a poesia de que me estás a ver, mas sei que não. Sei que moras em mim, algures entre a cabeça e o coração e ocupas grande parte deles. É bom.
Fazes cá falta, fazes cá falta para me desenrodilhares o rosto com o teu sorriso, para me sossegares no teu colo, para me veres com os teus olhos. Tem paciência, se puderes manda-me os teus olhos, manda-me os teus olhos para ver se me vejo.