quinta-feira, 29 de março de 2012

Dia 73

Ainda não sei viver sem ti. Passo pela vida num sopro, às vezes trôpego outras de passo firme, mas sempre manco, sempre. A forma de me mostrares a vida e o mundo, ainda que algumas, em idade de não as perceber, vou-as percebendo agora. O teu sentido de justiça, honestidade, boa índole, humanidade, balizava-me a vida. Eras como  uma consciência crítica de mim. Ensinaste-me o bom e o mau, o certo e o errado, o belo e o hediondo. Fazes cá falta. E custa-me falar de ti porque nada do que diga serás tu. Nenhum adjectivo, dezenas de adjectivos, te podem qualificar, não por mereceres todos, mas por seres porções diferentes de cada um, juntando a isso o amor que te tenho, tudo o que disser não serás tu.
Por isto tudo tropeço fatalmente em ti todos os dias, nem que seja só por causa daquela árvore ao fundo da nossa rua, que fica linda no Outono, e fica mãe, fica linda.
Gosto de alimentar a poesia de que me estás a ver, mas sei que não. Sei que moras em mim, algures entre a cabeça e o coração e ocupas grande parte deles. É bom.
Fazes cá falta, fazes cá falta para me desenrodilhares o rosto com o teu sorriso, para me sossegares no teu colo, para me veres com os teus olhos. Tem paciência, se puderes manda-me os teus olhos, manda-me os teus olhos para ver se me vejo.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia 72


Andas para aí de um lado para o outro, numa ansiedade de noiva, preocupada com tudo à volta. Capaz de te dar qualquer coisa.
Preocupada com tudo à volta e nem reparas que tudo à volta não repara em ti. Vontade de te gritar,
- Olha para mim
e abanar-te até acordares, desse espiral de medos e ânsias em que te metes.
Difícil perceber, como com uma vida tranquila, consegues inventar tantos problemas.
Ainda outro dia um colega meu, amigo de problemas como tu, de repente,
- Dói-me o braço
não teve tempo de dizer mais nada, no dia seguinte já no caixote encomendado a Deus.
Acalma-te então, capaz de te dar qualquer coisa.
Gastas a vida nisso e ficas sem vida para mim. E em todos estes anos, fui-me cansando ao ponto de não falar, e tu nem notas que eu quieto, mudo, no sofá, apenas a observa-te, a ver como desfazes a vida sem dares por ela.
Um dia destes, capaz de me dar qualquer coisa, farto-me e vou. Aposto que nem te apercebes. Uma unha partida ou um botão descosido a distrair-te, e eu a sair de malas na mão. Aí sim, capaz de te dar qualquer coisa. E no dia seguinte estás num caixote encomendado a Deus com a recomendação: descansa em paz. Eu avisei-te.