quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Dia 61

Ainda não adormeço no teu colo, mas lá tenho a felicidade do sossego. Perdem-se colos a vida toda e há muitos onde não encaixamos, e tantos que nos fogem se lá cabemos.
Sinto-me no princípio de tudo, como quando acordamos e não temos passado nenhum. Um acordar de nascimento.
Não tenho saudades, e preferi-las-ia a esta falta quase ortopédica de amputado, a quem não perguntaram se assim gostaria de estar no mundo, manco de amor e afecto, a mendigar carinho de esmola.
A saudade brilha lágrimas nos olhos, a falta escorre-nos cara abaixo.
Por te conhecer descobri que não tenho idade, por te amar descobri que sou eterno, como num colo de mãe ou numa “roda” de tias.
À vida não peço nada, perdoem, minto, peço apenas que me não tire, mas não peço nunca que me dê.
À força de tanto me tirar, deu-me aquele fino sol de março que nos aqueceu de invernos que vivemos. Bendito fevereiro, que tinha afinal prometido, o futuro que agora somos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Dia 60

O que te fazia ver o mundo cinzento? Quando mais nova olhavas à volta, e as cores todas do mundo escorriam tela abaixo e vestiam tudo cinzento, numa paleta de branco e preto, foi como me contaste. Não sabias porquê, sabias que acontecia. Foste-te virando para dentro. E porque para dentro, mais negro. E nada te faltava, aparentemente. Eras até bonita, uma menina a fazer-se mulher. Mas ainda menina de repente olhavas para a tua mãe,

-Onde estão as cores

e ela sem perceber,

- Estás cada vez mais esquisita

sem perceber que pedias ajuda, e tu não vias as cores.
Depois tiraste-as de ti, vestias toda de preto, moravas num quarto escuro, escrevias versos pretos em cadernos pretos. Chegavas a casa e subias as escadas a correr, o teu pai,

- O que é que ela tem

a tua mãe

- Está cada vez mais esquisita

Fez-se o mundo tão cinzento, que um dia pulsos no lavatório e água a correr, lâmina entre dedos trémulos, e felizmente, falhaste.
Digo felizmente, porque hoje, mais cor aos teus olhos, mais cor sobre o preto, mais cor dentro de ti, não pelos oitenta euros da consulta.