terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Dia 88


Já estava no sofá quando chegaste, ouvi a porta, o tlim das chaves no vidro da mesa, os tacões no soalho, depois só um tacão no soalho porque tu ao pé coxinho a tirares o outro, dois ou três suspiros profundos, um
- Olá
sem vida, ao entrares na sala, onde pousas a carteira na poltrona, como se carteira fosse gente, e eu menos gente ainda que carteira. Eu a procurar um beijo de lábios em repuxo, mas afinal caem-me na testa, frios e secos.
Quando é que isto acabou Teresa?
Não alto, para mim
Quando é que isto acabou Teresa?
Continuas os rituais, agora tens o gancho pendurado na boca, cabeça para baixo, mãos na nuca a juntar cabelos. Não me lembro de cabelos soltos em casa. A televisão aborrece-me. Tu finalmente no sofá, invariavelmente na outra ponta, não que seja muito grande, mas ainda assim um lugar a separar-nos.
Quando é que isto acabou Teresa?
Os miúdos já deitados. Tu com uma revista de moda ao colo, o nosso olá já passou há tanto tempo, tu ao telefone com uma amiga num olá bem mais quente e prolongado que o nosso, ou será um amigo, o sorriso bem mais aberto, talvez um amigo. Eu nulo, eu nada, um zero na matemática do sofá, eu quase
- Quando é que isto acabou Teresa?
mas coragem nenhuma, fôlego nenhum, eu
- Vou dormir amor
 tu
- Quando é que isto acabou Pedro?