quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Dia 97


Esta solidão toda. Parada, quieta, fez-me falta quando mais novo, mas para que me serve agora? Quero dormir só e ler só, mais nada, todo o outro tempo do dia quero movimento, conversa, alegria, passeio. Os amigos que tinha, quase todos fora deste mundo. Agora começo a gostar de conhecer as pessoas aqui do lar, saber-lhes o nome, a vida, os gestos, os trejeitos, as manias. Das maleitas gosto pouco, não suporto queixumes. Gosto de ouvir o: vamos andando, vamos indo, vai-se teimando, e logo a seguir sacar de um baralho de cartas e começar uma sueca, sem mais relambório de coitadinho. As mulheres são piores, desfiam o rosário com mais pormenor e paciência, não se ouvem umas às outras, numa roda de quatro e cada uma por si, elencam o rol de doenças, e passam a tarde de pés na escalfeta, a esgrimir varizes com pedras na vesícula, joanetes com bicos de papagaio e até úlceras com cancros na próstata. Algumas afirmam mesmo que já a tiraram, a próstata não a úlcera, imaginem. Nenhuma me cativa a atenção, são todas viúvas e carregam o passado com elas todos os dias, desde o preto da roupa à aliança do falecido pendurada no fio de ouro ao peito, carregam como mulas o passado inteiro, e trazem-no para a coversa todos os dias: o meu marido assim, o teu assado, eu dantes isto e tu aquilo. Nós homens, temos mais pudor na expressão dos sentimentos. Eu vivo menos bem, mas ainda assim bem, sem ti. Estás sempe comigo, trago-te como uma espécie de poema, que recito para mim todos os dias, principalmente quando vejo a beleza do mundo. Foste tu que me ensinaste a beleza do mundo, enquanto eu me matava a pensar que vivia. E olha que me tem dado jeito para aguentar esta antecâmara da morte.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Dia 96


Com que ternura olham os teu olhos. Que meiguice lhes descubro quando os vejo. Vontade nenhuma de fechar os meus. Mantê-los abertos sempre e continuar a descobrir essa ternura que o amor adoça. Os olhos dizem coisas, falam como boca aos olhos da gente. Por isso quando me olhas, eu ouço facilmente, com o ouvido da alma, o que a tua alma sente.