quinta-feira, 31 de maio de 2012

Dia 77


Como  gosto de te ver pela casa, numa corrida mansa aos saltinhos, mais na ponta dos pés, a evitar a tijoleira fria. Como gosto de te ver assim menina, despida do mundo, a seres só para nós, a fazer do amor o que ele é, e a não querer mais. Porque mais é o que fazemos dele, porque ontem já era tanto, que sendo mais poderia rebentar-nos no peito. Ainda assim é maior todos os dias. Julgo que, porque se não cresce morre. Como plantas, morre por aí amor todos os dias. Esse deve ser amor de estufa, amor cómodo e contratado. Uma espécie de amor manjerico que se perturbado por uma inspiração de nariz, morre ainda antes do S. João.
O nosso não é melhor que nenhum. É grande, é muito, é mais, tão mais que nos excede.
Isto não é uma declaração de amor, sou eu a querer fazer caber em letras aquilo que não cabe sequer em palavras.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Dia 76

Farta de tudo. Do dia-a-dia que mata. Mas não mata como pistola, mata como faca: todos os dias um novo golpezinho. Por vezes golpes maiores, de catana, que nos atiram ao chão, e ainda assim levantamo-nos sempre, mesmo que a golpezinhos de canivete, sem saber que mão nos ajuda.
- A vida custa a toda a gente!
dizia-lhe o pai quando mais nova.
Pensou que sim, mas pensou também que nem toda a gente aguenta.
Tinham saído todos no final do almoço, o marido para a Companhia, o mais velho para a faculdade, o do meio talvez para o liceu, mas provavelmente para jogar bilhar e fumar numa cave mal cheirosa de um qualquer café, a mais nova também para o liceu, ou talvez para uma festa em casa de uma amiga de pais ausentes, com bebidas, fumo e rapazes, pensou que talvez fosse melhor falar-lhe sobre a pílula, que já estava em idade e a tomar formas e belezas de mulher, e já se sabe: mais vale prevenir.
Estava farta de tudo. Passou a casa deserta e foi até ao quarto, caiu sentada de ombros tristes na colcha amarela de velha. Olhou com olhos vazios tudo à volta, e sentiu-se farta de tudo. A caixa de sapatos onde o marido guardava a pistola, espreitava por baixo da colcha junto aos pés, abriu-a e pegou-lhe. Pensou em tudo o que fazia todos os dias, semanas, todos os anos, e não encontrou nada que fizesse com alegria. Lembrou-se que o único sítio onde foi feliz foi na infância.
Fechou os olhos e caiu morta na cama. Morreu até ao fim da tarde, até o marido chegar e a acordar aos abanões para ir fazer o jantar.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Dia 75


Começas a chorar uma tristeza pequenina e logo aparecem outras, pequenas e grandes, a escorrerem-te cara abaixo. Dizes que não é nada, que não é nada, que não é nada, mas eu sei que no meio das dezenas de não é nada, é de certeza alguma coisa. Sou um marido compreensivo, ando à tua volta a dar-te mimos, chego-te os lenços de papel,
- Pára de fungar amor
enrolo-te os cabelos por trás da orelha, ficas bem mais bonita assim. Preocupo-me. Continuam os não é nada, fico aflito, mais lágrimas a crescerem nos olhos, repito
- O que foi
várias vezes, bem como
- O que tens
E sempre o mesmo velho e gasto
- Não é nada
a humedecer-te mais os olhos, e a mover-me ansiedades no peito.
Atiras um
- Não é nada sobre nós
o que me acalma mais um bocadinho. Arrisco um
- Então é o quê
E desmanchas-te num pranto de noiva abandonada no altar a dizer
- É tudo amor, tudo, tudo, tudo
Bates em segundos o recorde mundial de :”Nada a tudo a chorar com o marido ao lado”.
E não resisto, sabes que não resisto, cá vai
- Já te veio o período?
Perguntas
- Porquê?
Digo a abanar a cabeça
- Nada, nada, nada
e tu aos berros
- Achas que isto tem alguma coisa a ver com o período?
Respondo aos sins com a cabeça
- Tudo, tudo tudo.