quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Dia 83


Imagine-se o Homem, uma pedra e a matemática. Imagine-se tempos antigos, um homem com uma pedra recebe uma pedra de outro homem. Para além da generosidade, tem-se a adição: o primeiro homem ficou com mais uma. Para além do altruísmo tem-se a subtracção: o segundo homem ficou com menos uma. O primeiro homem tem mulher e vários filhos, o segundo também. O primeiro homem pega nas duas pedras e aplica-lhes marteladas com força. Ficam assim vinte pedaços de pedra. O homem distribui-as consoante o número de filhos seus e do segundo homem. Para além da solidariedade e da igualdade tem-se a divisão. Depois, não se sabe quando, apareceu um terceiro homem, pequenino e gordo, que não tendo pedra nenhuma disse aos dois homens,
- Se me derem esses vinte pedaços de pedra, daqui a trinta luas dar-vos-ei sessenta.
Para além da ganância, da inveja, do individualismo e da usura tem-se a multiplicação.
E a partir daí matam-se até hoje.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Dia 82


A praia ali, direita, quieta. Gente. Gente na água, na areia, entre a água e a areia, de mãos à cinta, de mão em pala na testa. O que me falta? O mar ali direito, não quieto, a entornar ora para lá ora para cá do mundo. A linha perfeita ao fundo a prenunciar a sua finitude, como se não soubéssemos que é quase redondo. E porque redondo se repete, dia e noite, vida e morte. O que me falta? Nós todos na areia, como que tombados de um ano de guerra, numa preguiça de foca. Está tudo aqui, no entanto algo me falta, julgo que aquilo que me embalava o berço, ou seja, a mão que me trazia à praia.