segunda-feira, 11 de maio de 2015

Dia 117


Está ali em baixo, na rua perpendicular ao meu estaminé, um homem a tentar fazer de estátua, mas não consegue. Também está a tentar fazer de pirata e também não consegue. Só olhando atentamente se percebe que tenta ser pirata, e por conseguinte, de atentamente olhar apercebemo-nos que não consegue ser estátua. Não é tanto por se mexer, é mais por não conseguir estar parado. Há uma inquietude nele, por mais que tente não mexer, não pára quieto, balança constantemente, um niquinho para a frente um niquinho para trás, não resiste a olhar quem passa, e olha voraz para quem fuma, temo que saque do sabre a que se agarra e me ameace

- Um cigarrinho chefe

O suposto homem-estátua-pirata não tem nenhuma moeda. Temo pela vida de quem passa, derivado ao sabre. 
Se fosse pombo ajudava-o, planaria um pouco por cima dele e poisaria altruísta na sua cabeça, finalizando a caridade com um presente no ombro, que é suponho eu, o nirvana dos homens estátua.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Dia 116


Somos para aqui dois velhos, acanho-me de te beijar, não em casa, na rua, porque a vida de hoje é tão jovem. Aceitamos dar as mãos sem pudor algum apesar de,

- Que giros aqueles dois velhos de mãos dadas

Apesar de a vida de hoje ser tão jovem. Damos as mãos. Acanhas-te de me beijar na rua porque um dia um,

- Que nojo

Vomitado de uma rapariga tão jovem, te esmagou contra a idade. Uma vida tão jovem com uma cabeça na idade média afectiva. A vida de hoje é tão jovem e tão descaradamente paleolítica.

Não calço as sapatilhas que me deste, as azuis com uma risquinha branca, porque na vida de hoje não cabe a minha juventude, sou velho, sou reformado, recebo pensões e tenho passes grátis e descontos nos comboios, calça-te de velho, não gaiteiro, morto é como te querem. Calça-te de velho, veste as calças de fazenda cinzenta e a camisola de lã castanha com borboto e esfarela o miolo de pão seco para os pombos, é para o que serves, para dar milho aos pombos e bateres as cartas sebentas na bisca dos reformados.

Somos para aqui dois velhos, mas não mortos, apesar do desejo estatístico dos rapazes que mandam nisto.

-É preciso nascer mais gente

Grita o profeta de Belém, não o de há dois mil anos, o outro, que me parece morto há mais tempo. E por detrás desse grito, parece-me ouvir

- Precisamos que morra mais gente

Para a sustentabilidade de patatá patatá… e aí deixo de ouvir, pois já me basta a morte querer-me matar.