quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Dia 84

Os teus chinelinhos ali, debaixo da cómoda, tão quietos. Levanto-me. Saudades tuas. Abro a gaveta errada, como sempre, e as tuas coisas ali, numa ordem feminina, isto sobre isto, aquilo sobre aquilo, não na minha ordem desordenada de isto sobre aquilo, aquilo sobre aqueloutro. Nas tuas gavetas faz-se sossego. Nas minhas tudo se desassossega. Nas tuas quietude, nas minhas reboliço. A tua desordem, se existe, rasa a minha organização. Olha, está ali o prego, para pendurar aquele quadro encostado à parede, para mim óptimo encostado à parede mas tu,
- Vê se penduras aquele quadro.
E eu
- Já vou...
E nunca fui de facto, faltava a bucha. Senão estragava o estuque.
- A parede não é de estuque Miguel!
Sabendo que a bricolage não era o teu forte, prolonguei o pendurar do quadro, dado que faltava a bucha logo estragaria o estuque. Quando tu aos sábados,
- Vê se penduras a merda do quadro!
eu saía intempestivamente de casa, e seguia para a loja, mas como intempestiva a saída, esquecia-me do prego, e na loja milhares de buchas, o empregado zeloso
-Tem o preguinho? Sabe o tamanho?
E eu sem saber tamanho nenhum, porque era um prego especial de corrida que vinha com o quadro. E o zeloso
- Para a próxima traga o preguinho.
Vinha embora sem bucha, chegava a casa e só saía na segunda-feira.
Não sei se foi por isso que te foste embora, eu ainda disse
- Leva o raio do quadro.
E tu
- Em casa da minha mãe não há buchas!
E eu fiquei-me aqui a remoer: como não há buchas? Dado que o teu pai, rei do martelo e da chave de fendas, tem uma garagem cheia de ferramentas e cheia de buchas certamente.
Outro dia fui lá, pedi-lhe algumas, e voltei para aqui, o quadro já está na parede, na garagem uma caixa cheia de buchas, podes voltar se quiseres. Entretanto ando para aqui de berbequim, a fazer furos e a meter buchas, a ver se consigo encher os buracos de solidão que me fizeste.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Dia nenhum


Resisti, resisti, resisti. Hoje não resisto. Os males de Portugal entram-me caneta adentro. Entram-me pelos olhos e ouvidos, batem-me no cérebro, ricocheteiam no coração e caem-me como pedras no estômago. O futuro é dia nenhum. Foi ontem. Cada dia que nasce anoitece mais depressa. O futuro é o passado. Esperança nenhuma à frente. Esgravato no fundo de mim um pequeno ponto de brilho que me permita escrever. Não encontro. Ando sem dia nenhum à frente. O desgoverno bate-me traiçoeiro nas costas, como um sopapo de mão gorda, e afocinho de queixos no chão, todos os dias. A corja mandante tem-nos de gatas e de calças nos tornozelos. Portugal recua. Eu resisto. Hoje não, porque em mim: dia nenhum à frente.