- Vê se penduras aquele quadro.
E eu
- Já vou...
E nunca fui de facto, faltava a
bucha. Senão estragava o estuque.
- A parede não é de estuque
Miguel!
Sabendo que a bricolage não era
o teu forte, prolonguei o pendurar do quadro, dado que faltava a bucha logo estragaria
o estuque. Quando tu aos sábados,
- Vê se penduras a merda do
quadro!
eu saía intempestivamente de
casa, e seguia para a loja, mas como intempestiva a saída, esquecia-me do prego, e na
loja milhares de buchas, o empregado zeloso
-Tem o preguinho? Sabe o
tamanho?
E eu sem saber tamanho nenhum,
porque era um prego especial de corrida que vinha com o quadro. E o zeloso
- Para a próxima traga o
preguinho.
Vinha embora sem bucha, chegava
a casa e só saía na segunda-feira.
Não sei se foi por isso que te
foste embora, eu ainda disse
- Leva o raio do quadro.
E tu
- Em casa da minha mãe não há
buchas!
E eu fiquei-me aqui a remoer:
como não há buchas? Dado que o teu pai, rei do martelo e da chave de fendas, tem
uma garagem cheia de ferramentas e cheia de buchas certamente.
Outro dia fui lá, pedi-lhe algumas,
e voltei para aqui, o quadro já está na parede, na garagem uma caixa cheia de
buchas, podes voltar se quiseres. Entretanto ando para aqui de berbequim, a
fazer furos e a meter buchas, a ver se consigo encher os buracos de solidão que me fizeste.