É sexta-feira, o patrão bem disposto, estou melhor da azia derivado aos sais que comprei no supermercado. Almoçei que nem um abade, um bacalhauzihnho assado com batatas à Sá Pinto, que ficou a nadar de costas num verde branco de apelido martelo, seguido de um Romeu e Julieta para adoçar o bico, e a fechar, um cheirinho com café, dois terços de cheirinho um de café. A tarde vai ser calma porque se deixa tudo para segunda-feira. Em chegando a casa, a patroa na cozinha num reboliço de tachos e cheiro a couve cozida. Eu vou fisgado para o quarto, visto o fatinho de treino e aterro nas vinte e quatro prestações da Moviflor em frente à televisão. Porque hoje meus senhores, joga o meu clube! Tu tens essas manias da igreja, mas eu é a família e depois o clube. Pego no meu mais novo que adora ver a bola, o mais velho não gosta, fica no quarto a escrever mariquices ao computador, e enrolados nos cachecóis vivemos a vida naquelas duas horas. Tu ocupada com o comer e a resmungares por te faltar a novela, portanto tudo certo, tudo no lugar como deve ser.
Entramos bem no jogo, isto é para ganhar! O rapaz também vibra e discute e diz asneiras, acho graça a este carago. E bola vem bola vai, já estão duas no galinheiro, o árbitro quase a apitar, nós já na ponta do sofá
- Acaba essa merda
nervosos, ele apita
- Ganhamos!
Nós a gritarmos
- Ganhamos!
O meu mais novo a correr pela casa, a minha patroa a mandar-nos calar, até que de repente sai do quarto o meu mais velho e pergunta
- Ganharam o quê?
E eu sou sincero, mandei-lhe um berro para ir para o quarto e estar calado, que estou farto das mariquices dele, sempre armado que é escritor e o diabo a quatro. Mas a verdade é que passei a noite toda a pensar: ganhamos o quê? E cheguei à conclusão que não sei responder, excepto que ganhamos três pontos, que não é lá grande coisa para se ganhar, para que servem três pontos? Só se forem três pontos na tabela da auto-estima, ainda assim, não tenho certezas.