terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Dia 88


Já estava no sofá quando chegaste, ouvi a porta, o tlim das chaves no vidro da mesa, os tacões no soalho, depois só um tacão no soalho porque tu ao pé coxinho a tirares o outro, dois ou três suspiros profundos, um
- Olá
sem vida, ao entrares na sala, onde pousas a carteira na poltrona, como se carteira fosse gente, e eu menos gente ainda que carteira. Eu a procurar um beijo de lábios em repuxo, mas afinal caem-me na testa, frios e secos.
Quando é que isto acabou Teresa?
Não alto, para mim
Quando é que isto acabou Teresa?
Continuas os rituais, agora tens o gancho pendurado na boca, cabeça para baixo, mãos na nuca a juntar cabelos. Não me lembro de cabelos soltos em casa. A televisão aborrece-me. Tu finalmente no sofá, invariavelmente na outra ponta, não que seja muito grande, mas ainda assim um lugar a separar-nos.
Quando é que isto acabou Teresa?
Os miúdos já deitados. Tu com uma revista de moda ao colo, o nosso olá já passou há tanto tempo, tu ao telefone com uma amiga num olá bem mais quente e prolongado que o nosso, ou será um amigo, o sorriso bem mais aberto, talvez um amigo. Eu nulo, eu nada, um zero na matemática do sofá, eu quase
- Quando é que isto acabou Teresa?
mas coragem nenhuma, fôlego nenhum, eu
- Vou dormir amor
 tu
- Quando é que isto acabou Pedro?

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Dia 87


Eras linda e chamavas-te Rosa, eras loira e eu chamava-te Zita, Zita não de Rosita de “loirazita”. Na aldeia, quando passava afogueado pelo dominó dos reformados para te ir buscar, alguém
- Rápido que te atrasas
Outro
- Tás de beiço pela russa.
Eu não percebia porque russa, dado que russa o nome da porca, no chiqueiro da minha avó, e nome de gente má nos filmes americanos. Ela bem portuguesa só que loira. Eu embeiçado sim. Todos os dias juntos a caminho da escola e que bom era o cheiro do caminho da escola,o húmido do outono e o seco do verão são os que mais me lembro, adjectivos para eles não tenho, sei que ainda hoje, se os sinto, milhares de luzes na cabeça a acenderem-me a adolescência. Dizia, todos os dias juntos a caminho da escola: eramos felizes.
Eu apaixonado e ela sem perceber, ou a fingir não perceber, ela
- Quando for grande vou para a cidade
E um medo tão grande em mim, que a cidade me levasse a Zita.
Vezes havia que me dava a mão, e que paz desassossegada aquela mão, um calor com cócegas na barriga. Mas as manias de cidade cresciam nela
- Quero ser alguém na vida
Infelizmente não na minha. Um dia o sonho acabou, chegou um primo de França que lhe prometeu trabalho, dizia que numa fábrica (ele dizia usine), mas aposto que para limpar o chão de ricos, a Zita já só via Paris e não me ouviu. Ela foi. Eu morri, melhor, fui morrendo. E não sei o que melhor há que um amor para se ser alguém na vida. É certo que no mundo, mais amores desencontrados que felizes, mas, mais certo ainda, é aparecer um primo de qualquer lado a prometer-nos ser alguém, e que de dentro do carro com o nosso amor ao lado, nos pisca o olho e diz arrancando
-C’est la vie.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Dia 86


Dá-me um bocadinho do teu comunismo, que tenho vontade de gritar alto na rua. É que a vida acomoda a gente, vai-nos calando devagarinho e põe-nos a praguejar contra a televisão. Põe aí no gira-discos aquelas músicas um bocadinho comunistas, de que secretamente gosto, e que trauteio de vez em quando meio envergonhado.
Chega-me aqueles livros da América do Sul que sonham sozinhos e que de relê-los parecem escritos agora. Sabes que com a idade a gente verga ao peso do dinheiro que não tem e ao do que tem também. E aí os pés fogem para o chinelo na desilusão de não valer a pena.
Por isso se não te importas, dá-me um bocadinho do teu comunismo, que tenho vontade de gritar alto na rua. Por favor, só um bocadinho, que me permita sonhar.

sábado, 13 de outubro de 2012

Dia 85


Quando se sentou à noite em frente ao toucador, depois do jantar que reuniu os filhos e a família chegada, para celebrar os seus sessenta e cinco anos, ficou-se a olhar o espelho. E como esperando ver-se nova, espantou-se. Espantou-se com o enrodilhado da cara, com o cabelo grisalho, com a maquilhagem borratada porque sem tempo, com os papos dos olhos inchados de lágrimas por tristezas que não chorou. Pensou no Vasco que lhe rondou as saias no viço dos dezoito anos, mais velho e sabido, chegava à porta de casa dos seus pais e apitava duas vezes, sempre de óculos à aviador, pólo do crocodilo e cigarro na boca.
O pai gritava-lhe:
- Não saias com esse malandro.
Tinha razão, o Vasco depressa desapareceu, não lhe levando nada mais que uns beijos e uns amassos. Depois apareceu o Jaime e até hoje o Jaime.
Olhava-se ainda ao espelho e não se sentia. Procurou-se nos últimos trinta anos e não se viu. O marido já não bem marido, já só chinelos e roupão na cova do sofá, já só,
- Chega-me o cinzeiro Luísa.
Já só um beijo desajeitado e rápido de lábios cerrados,
- Parabéns.
Os filhos já não bem filhos, como visitas em casa, para quem se cozinha, se lava e passa uma roupa, e de vez quando um cheque a sair da carteira para ajudar na escola dos netos.
Sentia-se revoltada, subtraída de vida, procurou-se nos últimos trinta anos e viu-se mãe, esposa, cozinheira, empregada de limpeza, médica, enfermeira, professora, motorista, fazedora de tantas tarefas que nem nomes há para as qualificar.
Quando se deitou, cansada, já o Jaime na cama, não bem o Jaime na cama, antes um ronco que denunciava o Jaime. Fechou os olhos e pensou que os homens a força bruta do mundo, as mulheres a força calma e resistente. As mulheres a força do dia-a-dia, que sustenta a vida que faz andar o mundo. No momento imediatamente antes de adormecer disse baixinho,
- As mulheres: a maior força do mundo.
O Jaime ressonou alto, e a maior força do mundo, dormiu…

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Dia 84

Os teus chinelinhos ali, debaixo da cómoda, tão quietos. Levanto-me. Saudades tuas. Abro a gaveta errada, como sempre, e as tuas coisas ali, numa ordem feminina, isto sobre isto, aquilo sobre aquilo, não na minha ordem desordenada de isto sobre aquilo, aquilo sobre aqueloutro. Nas tuas gavetas faz-se sossego. Nas minhas tudo se desassossega. Nas tuas quietude, nas minhas reboliço. A tua desordem, se existe, rasa a minha organização. Olha, está ali o prego, para pendurar aquele quadro encostado à parede, para mim óptimo encostado à parede mas tu,
- Vê se penduras aquele quadro.
E eu
- Já vou...
E nunca fui de facto, faltava a bucha. Senão estragava o estuque.
- A parede não é de estuque Miguel!
Sabendo que a bricolage não era o teu forte, prolonguei o pendurar do quadro, dado que faltava a bucha logo estragaria o estuque. Quando tu aos sábados,
- Vê se penduras a merda do quadro!
eu saía intempestivamente de casa, e seguia para a loja, mas como intempestiva a saída, esquecia-me do prego, e na loja milhares de buchas, o empregado zeloso
-Tem o preguinho? Sabe o tamanho?
E eu sem saber tamanho nenhum, porque era um prego especial de corrida que vinha com o quadro. E o zeloso
- Para a próxima traga o preguinho.
Vinha embora sem bucha, chegava a casa e só saía na segunda-feira.
Não sei se foi por isso que te foste embora, eu ainda disse
- Leva o raio do quadro.
E tu
- Em casa da minha mãe não há buchas!
E eu fiquei-me aqui a remoer: como não há buchas? Dado que o teu pai, rei do martelo e da chave de fendas, tem uma garagem cheia de ferramentas e cheia de buchas certamente.
Outro dia fui lá, pedi-lhe algumas, e voltei para aqui, o quadro já está na parede, na garagem uma caixa cheia de buchas, podes voltar se quiseres. Entretanto ando para aqui de berbequim, a fazer furos e a meter buchas, a ver se consigo encher os buracos de solidão que me fizeste.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Dia nenhum


Resisti, resisti, resisti. Hoje não resisto. Os males de Portugal entram-me caneta adentro. Entram-me pelos olhos e ouvidos, batem-me no cérebro, ricocheteiam no coração e caem-me como pedras no estômago. O futuro é dia nenhum. Foi ontem. Cada dia que nasce anoitece mais depressa. O futuro é o passado. Esperança nenhuma à frente. Esgravato no fundo de mim um pequeno ponto de brilho que me permita escrever. Não encontro. Ando sem dia nenhum à frente. O desgoverno bate-me traiçoeiro nas costas, como um sopapo de mão gorda, e afocinho de queixos no chão, todos os dias. A corja mandante tem-nos de gatas e de calças nos tornozelos. Portugal recua. Eu resisto. Hoje não, porque em mim: dia nenhum à frente.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Dia 83


Imagine-se o Homem, uma pedra e a matemática. Imagine-se tempos antigos, um homem com uma pedra recebe uma pedra de outro homem. Para além da generosidade, tem-se a adição: o primeiro homem ficou com mais uma. Para além do altruísmo tem-se a subtracção: o segundo homem ficou com menos uma. O primeiro homem tem mulher e vários filhos, o segundo também. O primeiro homem pega nas duas pedras e aplica-lhes marteladas com força. Ficam assim vinte pedaços de pedra. O homem distribui-as consoante o número de filhos seus e do segundo homem. Para além da solidariedade e da igualdade tem-se a divisão. Depois, não se sabe quando, apareceu um terceiro homem, pequenino e gordo, que não tendo pedra nenhuma disse aos dois homens,
- Se me derem esses vinte pedaços de pedra, daqui a trinta luas dar-vos-ei sessenta.
Para além da ganância, da inveja, do individualismo e da usura tem-se a multiplicação.
E a partir daí matam-se até hoje.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Dia 82


A praia ali, direita, quieta. Gente. Gente na água, na areia, entre a água e a areia, de mãos à cinta, de mão em pala na testa. O que me falta? O mar ali direito, não quieto, a entornar ora para lá ora para cá do mundo. A linha perfeita ao fundo a prenunciar a sua finitude, como se não soubéssemos que é quase redondo. E porque redondo se repete, dia e noite, vida e morte. O que me falta? Nós todos na areia, como que tombados de um ano de guerra, numa preguiça de foca. Está tudo aqui, no entanto algo me falta, julgo que aquilo que me embalava o berço, ou seja, a mão que me trazia à praia.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Dia 81

- Aquela sombra sou eu? Sou aquele miúdo magrinho a jogar à bola, ainda por cima com cabelo à menina?
Meia tigela na cabeça, e o Landinho,
- Não mexa a cabeça menino,
ao mesmo tempo que me ferrava o punho no pescoço e me punha em sentido.
Passa-se o tempo tão rápido.
- Aquela sombra sou eu?
Não posso ser eu, aquele ali a pingar amores pelos passeios junto ao liceu, com o cabelo lambido em gel e a suar desodorizante em spray de supermercado, daqueles que faziam as mulheres abraçar-nos por trás e nos impediam de fecharmos a camisa de ganga.
- Aquela sombra sou eu?
Não sou eu naquela fotografia, não, não pode ser, aquele no meio de dois velhotes com um canudo de metal na mão e uma gravata igualzinha à do meu pai, não.
Serei aquele no carro vermelho a passar, a subir a encosta para casa do George Harrison onde toco bateria e pareço feliz?
- Aquela sombra sou eu? Aquela sombra fui eu?
Fico-me aqui a pensar se seremos todas as sombras somadas de nós, ou só a sombra de agora, e por cima de mim: uma sombra de dúvidas.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Dia 80


Dia acordado à pressa, não te vejo na cama, penso que já foste, distraio-me na barba e no chuveiro apressado, prometo que hoje me vou deitar mais cedo, para dormir muito, prometo sempre. Parece que já saíste. Digo que nunca mais vou usar gravata, digo sempre, não cumpro nunca. Tenho a vida adiada, até à próxima fatalidade, ou até à reforma, porque até lá ainda não tive tempo para nada. Esse mesmo tempo que reclamas ser para ti, esse mesmo tempo, não existe, sou um marido adiado, um pai adiado, um amante adiado. Dizes que vivo para o trabalho, não! Trabalho para sobreviver, para sobrevivermos. Isto tudo na cabeça entre a casa de banho e a porta da rua. Chego à entrada numa ansiedade operária que precede o picar do ponto, remexo os molhos de chaves, moedas soltas e cartões de visita, nunca acerto nas chaves, meto tudo nos bolsos. Desço elevadores abro portas de escadas e garagens, preciso de quatro chaves para conseguir sair de carro, e nunca acerto à primeira.
Trânsito e nova garagem, e mais portas, cartões e chaves para chegar à secretária. Trabalho, trabalho, trabalho.
Chego a casa já dia adormecido, sento-me, sento-me não, caio, caio no sofá. E logo que caio, os meus olhos num envelope ao centro da mesa, é uma carta, diz João, é para mim. É tua. Diz que fui o amor da tua vida, que te aconteci como num sonho, que fui o homem mais incrível e carinhoso, que parecia mentira, que não podia ser verdade, que como eu não existia. Mas, diz a carta também, que como vais avançada de idade, a entrar pelos quarenta adentro, que querias assentar e ter filhos, e que alguém como eu não dá segurança a ninguém. A carta também diz: Adeus. A puta da carta.         

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Dia 79

Não fazes um barulhinho sequer, sais devagarinho, voltas e abres a janela do sorriso, que me acorda e me dispõe a tudo. Fico quieto. Os olhos tão bonitos. Quem me dera esses olhos a espreitar dentro de ti. Tão bem. Tão bom. Posso morrer. Posso morrer agora. Depois os dois. Depois acabam as pessoas, depois tudo o que está à volta das pessoas. Depois a nuvem branca a vogar no celeste azul à volta do mundo. O amor é a nossa casa, somos a nossa casa. Um abraço de força, que meigo e suave encaixe. O dia não está bonito nem chove, como acontece normalmente nestes textos. Mas em nós há sol. Somos tão pouco. A vida inteira não chega. Não peço mais. Quero bocadinhos destes, metidos em caixinhas, assim me basta.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Dia 78


Deixei a sala cabisbaixo. Tu ficaste. Ficaste a ver o lixo a sair da televisão. Incrível como aceitas esse lixo casa dentro e, em contraponto, limpas a casa furiosamente em inundações de lixívia e cheiros de lava-tudo. O pior lixo do mundo é o que nos entra pelos olhos e ouvidos, consciente ou inconscientemente. Não, não sou intelectual nenhum, não me fustigues com ataques rudimentares, aprendidos em livros fofinhos de Margaridas entendidas em assuntos masculinos. Normalmente essas nada entendem, estão sozinhas e fazem alarde da sua vida tão independente, amam o seu Jeep mas não amam ninguém, e tenho a certeza que à noite, diluem a solidão em baldes de gelado e derretem tristezas em barras de chocolate.
Digo que deixei a sala cabisbaixo porque acho que desisti de ti. Já nem consigo discutir contigo, presumo que o primeiro sinal de desistência.
Portanto, vai, vai engrossar a massa da normalidade, que é bem perigosa porque facilmente manipulável, mas que te conforta, porque dizes,

-Toda a gente é assim!

Pois é, eu sou o único homem que gosta de ler e ouvir música, e não liga a televisão. Sou assim, mas os maridos das outras não.


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Dia 77


Como  gosto de te ver pela casa, numa corrida mansa aos saltinhos, mais na ponta dos pés, a evitar a tijoleira fria. Como gosto de te ver assim menina, despida do mundo, a seres só para nós, a fazer do amor o que ele é, e a não querer mais. Porque mais é o que fazemos dele, porque ontem já era tanto, que sendo mais poderia rebentar-nos no peito. Ainda assim é maior todos os dias. Julgo que, porque se não cresce morre. Como plantas, morre por aí amor todos os dias. Esse deve ser amor de estufa, amor cómodo e contratado. Uma espécie de amor manjerico que se perturbado por uma inspiração de nariz, morre ainda antes do S. João.
O nosso não é melhor que nenhum. É grande, é muito, é mais, tão mais que nos excede.
Isto não é uma declaração de amor, sou eu a querer fazer caber em letras aquilo que não cabe sequer em palavras.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Dia 76

Farta de tudo. Do dia-a-dia que mata. Mas não mata como pistola, mata como faca: todos os dias um novo golpezinho. Por vezes golpes maiores, de catana, que nos atiram ao chão, e ainda assim levantamo-nos sempre, mesmo que a golpezinhos de canivete, sem saber que mão nos ajuda.
- A vida custa a toda a gente!
dizia-lhe o pai quando mais nova.
Pensou que sim, mas pensou também que nem toda a gente aguenta.
Tinham saído todos no final do almoço, o marido para a Companhia, o mais velho para a faculdade, o do meio talvez para o liceu, mas provavelmente para jogar bilhar e fumar numa cave mal cheirosa de um qualquer café, a mais nova também para o liceu, ou talvez para uma festa em casa de uma amiga de pais ausentes, com bebidas, fumo e rapazes, pensou que talvez fosse melhor falar-lhe sobre a pílula, que já estava em idade e a tomar formas e belezas de mulher, e já se sabe: mais vale prevenir.
Estava farta de tudo. Passou a casa deserta e foi até ao quarto, caiu sentada de ombros tristes na colcha amarela de velha. Olhou com olhos vazios tudo à volta, e sentiu-se farta de tudo. A caixa de sapatos onde o marido guardava a pistola, espreitava por baixo da colcha junto aos pés, abriu-a e pegou-lhe. Pensou em tudo o que fazia todos os dias, semanas, todos os anos, e não encontrou nada que fizesse com alegria. Lembrou-se que o único sítio onde foi feliz foi na infância.
Fechou os olhos e caiu morta na cama. Morreu até ao fim da tarde, até o marido chegar e a acordar aos abanões para ir fazer o jantar.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Dia 75


Começas a chorar uma tristeza pequenina e logo aparecem outras, pequenas e grandes, a escorrerem-te cara abaixo. Dizes que não é nada, que não é nada, que não é nada, mas eu sei que no meio das dezenas de não é nada, é de certeza alguma coisa. Sou um marido compreensivo, ando à tua volta a dar-te mimos, chego-te os lenços de papel,
- Pára de fungar amor
enrolo-te os cabelos por trás da orelha, ficas bem mais bonita assim. Preocupo-me. Continuam os não é nada, fico aflito, mais lágrimas a crescerem nos olhos, repito
- O que foi
várias vezes, bem como
- O que tens
E sempre o mesmo velho e gasto
- Não é nada
a humedecer-te mais os olhos, e a mover-me ansiedades no peito.
Atiras um
- Não é nada sobre nós
o que me acalma mais um bocadinho. Arrisco um
- Então é o quê
E desmanchas-te num pranto de noiva abandonada no altar a dizer
- É tudo amor, tudo, tudo, tudo
Bates em segundos o recorde mundial de :”Nada a tudo a chorar com o marido ao lado”.
E não resisto, sabes que não resisto, cá vai
- Já te veio o período?
Perguntas
- Porquê?
Digo a abanar a cabeça
- Nada, nada, nada
e tu aos berros
- Achas que isto tem alguma coisa a ver com o período?
Respondo aos sins com a cabeça
- Tudo, tudo tudo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Dia 74


Quantas tinha não sei, mas era menino para ter várias, uma em cada canto para evitar encontros ao centro, onde se situava com a que intitulava de “oficial”. Não era especialmente bonito, mas quando fisgava uma dava caso na certa. Nunca lhe perguntei como conseguia, provavelmente não o saberia também, acontecia-lhe, e como depois sem remorsos, levava a vida a sorrir. É certo que telefonemas controlados e saídas nocturnas bem preparadas, um “reset” nas chamadas quer recebidas quer feitas, não fosse a “oficial” tropeçar numa Rita ou numa Andreia que não primas e ia tudo por água abaixo.
Agora quantas tem não sei, não me perguntes, é menino para não ter nenhuma, a oficial passou a mulher, metem-se os sogros e pais ao barulho e sabes como é: um gajo amansa. Julgo que agora até nem com a mulher, já lhe fez os filhos, e eles passaram-lhe à frente. Vi-o há dias, de cabeça metida nos ombros a passear os carrinhos junto ao parque infantil, disse-lhe
- Como é Toni
e ele levantou os olhos de um boião de papa e sorriu, nem sequer
-Olá
nem nada, com a mulher a dar-lhe cotoveladas, porque a colher de papa já no nariz do menino, e parece-me que ainda a ouvi dizer
-Seu palerma
e ele
- Calma “môr” .



quinta-feira, 29 de março de 2012

Dia 73

Ainda não sei viver sem ti. Passo pela vida num sopro, às vezes trôpego outras de passo firme, mas sempre manco, sempre. A forma de me mostrares a vida e o mundo, ainda que algumas, em idade de não as perceber, vou-as percebendo agora. O teu sentido de justiça, honestidade, boa índole, humanidade, balizava-me a vida. Eras como  uma consciência crítica de mim. Ensinaste-me o bom e o mau, o certo e o errado, o belo e o hediondo. Fazes cá falta. E custa-me falar de ti porque nada do que diga serás tu. Nenhum adjectivo, dezenas de adjectivos, te podem qualificar, não por mereceres todos, mas por seres porções diferentes de cada um, juntando a isso o amor que te tenho, tudo o que disser não serás tu.
Por isto tudo tropeço fatalmente em ti todos os dias, nem que seja só por causa daquela árvore ao fundo da nossa rua, que fica linda no Outono, e fica mãe, fica linda.
Gosto de alimentar a poesia de que me estás a ver, mas sei que não. Sei que moras em mim, algures entre a cabeça e o coração e ocupas grande parte deles. É bom.
Fazes cá falta, fazes cá falta para me desenrodilhares o rosto com o teu sorriso, para me sossegares no teu colo, para me veres com os teus olhos. Tem paciência, se puderes manda-me os teus olhos, manda-me os teus olhos para ver se me vejo.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dia 72


Andas para aí de um lado para o outro, numa ansiedade de noiva, preocupada com tudo à volta. Capaz de te dar qualquer coisa.
Preocupada com tudo à volta e nem reparas que tudo à volta não repara em ti. Vontade de te gritar,
- Olha para mim
e abanar-te até acordares, desse espiral de medos e ânsias em que te metes.
Difícil perceber, como com uma vida tranquila, consegues inventar tantos problemas.
Ainda outro dia um colega meu, amigo de problemas como tu, de repente,
- Dói-me o braço
não teve tempo de dizer mais nada, no dia seguinte já no caixote encomendado a Deus.
Acalma-te então, capaz de te dar qualquer coisa.
Gastas a vida nisso e ficas sem vida para mim. E em todos estes anos, fui-me cansando ao ponto de não falar, e tu nem notas que eu quieto, mudo, no sofá, apenas a observa-te, a ver como desfazes a vida sem dares por ela.
Um dia destes, capaz de me dar qualquer coisa, farto-me e vou. Aposto que nem te apercebes. Uma unha partida ou um botão descosido a distrair-te, e eu a sair de malas na mão. Aí sim, capaz de te dar qualquer coisa. E no dia seguinte estás num caixote encomendado a Deus com a recomendação: descansa em paz. Eu avisei-te.    

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Dia 71

O amor não precisa de chantili. Não precisa de morangos, nem de champanhe, nem de cintas de ligas, nem de velas, nem de chicotes e algemas. O amor só precisa do outro. O amor não precisa de dinheiro, o amor não dá troco. Não tem descontos ofertas ou promoções. Não dá brindes. O amor não cabe na economia, por muito que o queiram rentabilizar, se dá lucro: não é amor. O amor é como um serviço público que dá prejuízo ao estado, mas dá lucro no coração de toda a gente. O amor é a utopia comunista: não tem classes. Morre-se de amor porque se vive. Vive-se mas não se morre literalmente dele. O amor é uma Maria-vai-com-as-outras, pode ir com toda a gente, mas ninguém diz que é uma puta.
O amor não quer perfumes, nem postais com corações, não quer dia dos namorados, nem anos de namoro ou de casados.
O amor só quer o outro, por isso o meu te quer a ti.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Dia 70

É sexta-feira, o patrão bem disposto, estou melhor da azia derivado aos sais que comprei no supermercado. Almoçei que nem um abade, um bacalhauzihnho assado com batatas à Sá Pinto, que ficou a nadar de costas num verde branco de apelido martelo, seguido de um Romeu e Julieta para adoçar o bico, e a fechar, um cheirinho com café, dois terços de cheirinho um de café. A tarde vai ser calma porque se deixa tudo para segunda-feira. Em chegando a casa, a patroa na cozinha num reboliço de tachos e cheiro a couve cozida. Eu vou fisgado para o quarto, visto o fatinho de treino e aterro nas vinte e quatro prestações da Moviflor em frente à televisão. Porque hoje meus senhores, joga o meu clube! Tu tens essas manias da igreja, mas eu é a família e depois o clube. Pego no meu mais novo que adora ver a bola, o mais velho não gosta, fica no quarto a escrever mariquices ao computador, e enrolados nos cachecóis vivemos a vida naquelas duas horas. Tu ocupada com o comer e a resmungares por te faltar a novela, portanto tudo certo, tudo no lugar como deve ser.
Entramos bem no jogo, isto é para ganhar! O rapaz também vibra e discute e diz asneiras, acho graça a este carago. E bola vem bola vai, já estão duas no galinheiro, o árbitro quase a apitar, nós já na ponta do sofá
- Acaba essa merda
nervosos, ele apita
- Ganhamos!
Nós a gritarmos
- Ganhamos!
O meu mais novo a correr pela casa, a minha patroa a mandar-nos calar, até que de repente  sai do quarto o meu mais velho e pergunta
- Ganharam o quê?
E eu sou sincero, mandei-lhe um berro para ir para o quarto e estar calado, que estou farto das mariquices dele, sempre armado que é escritor e o diabo a quatro. Mas a verdade é que passei a noite toda a pensar: ganhamos o quê? E cheguei à conclusão que não sei responder, excepto que ganhamos três pontos, que não é lá grande coisa para se ganhar, para que servem três pontos? Só se forem três pontos na tabela da auto-estima, ainda assim, não tenho certezas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Dia 69


A Amélia viúva, em trajes negros e lenço de luto a atar a cabeça, vai todos os dias ao cemitério. Pára na florista do mercado e pede um molhinho do que houver, às vezes margaridas, outras crisântemos, às vezes uma rosa roubada do jardim do senhor doutor, a coberto do cedo do dia. Quando só há malmequeres diz
- Meu Deus nem pensar, o meu bem querer pelo meu homem ainda o tenho, se lhe boto malmequeres o que é que ele há-de pensar!
Chega cedo, e antes de depositar as flores na jarra velha de pedra, desata a limpar a campa com uma vassourinha pequena. Fá-lo com tal vigor que fica vermelha e ofegante, mas feliz, e não perde uma oportunidade de dizer a toda a gente
- A mármore mais branca do cemitério é a do falecido da Amélia viúva.
Depois com um lencinho, limpa a fotografia de esmalte do morto, enche a jarra com água limpa, põe-lhe as flores e deposita-a na laje que brilha. Em pose de prece e em frente à campa, mexe os lábios depressa a rezar poemas dos apóstolos. Depois vai, e amanhã volta.
Eu gostava de ser como a Amélia viúva, não na parte do viúva claro, mas gostava de ir ao cemitério para estar com os que amo (amei?), acreditar que eles lá estão e falar sozinho com eles, mas sempre que lá vou parece que combinaram e foram todos embora.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Dia 68


A minha vizinha loira (que nasceu morena), deixa um rasto de perfume do rés-do-chão ao quinto andar, incluindo claro o elevador. Digo que nasceu morena porque cabelo loiro mas sobrancelhas castanho escuras.
Eu moro com a minha mãe, que coitada sofre dos nervos e da cabeça, que coitada precisa de mim, que coitado preciso dela.
Há meses mudou-se para cá, e dirige com profissionalismo e garbo uma boutique no centro comercial antigo aqui do bairro.
Quando não estou a partir lorenins, xanaxes, e anti-depressivos para os cocktails da minha mãe (que os toma com café), estou a espreitar a loira.
Do buraco da porta ou da marquise, da janela do quarto ao café do Albino, estou com ela em mira sempre que posso, que isto de estar desempregado tem as suas vantagens, e nas coisas do amor não olho a gastos, nem de tempo nem de dinheiro.
Sai de manhã, não muito cedo, e eu sigo-a, primeiro com o nariz ao alto a farejar a colónia inebriante, depois com os olhos em alvo naquelas calças de couro ( não sei se napa se couro), nos sapatos altos e brilhantes como que a desafiar a gravidade, no casaco peludo leopardo e por fim naquela melena loira. Digo que a partir daí todas as minhas partes em sobressalto. Na quinta-feira tomei-me de coragem e convidei-a para jantar no restaurante snack-bar Nelito na rua ao fundo.
Primeiro nervoso, depois tranquilo, derivado à carga etílica do vinho da casa, que o Nelito manda vir de Espanha, fiquei deliciado a ouvi-la. Disse-me que curtia cenas e que o melhor do mundo são as crianças, disse-me que é por isto que o país está assim e que adora citações do Paulo Coelho. Percorreu cheia de opiniões toda a actualidade politica e toda a não politica também, disse-me em quase lágrimas que estava só e de bem com a vida, e eu acenava a cabeça que sim, completamente rendido àquela mulher linda e culta. Sim, linda e culta. No final disse-me,
- Pedras no caminho? Guardo-as todas, para um dia construir um castelo!
 Linda e culta, muito muito culta!