terça-feira, 3 de maio de 2016

Dia 120



O sol derretia a tarde de Agosto. Um verão cruel a fazer-me líquido. E em mim Janeiro. Janeiro em mim o ano todo. Raiozinho de sol nenhum. Percebe? Há pouca vida sem um raiozinho de sol. Cabe-me o inverno inteiro dentro do peito. Será possível, um verão tão poderoso lá fora, e eu a carregar Janeiro para todo o lado? O doutor por acaso não me arranja uma pastilhinha, qualquer coisa, a ver se arrebito? O médico a olhar para mim pelas persianas semicerradas dos olhos,

­- Janeiro?

É como lhe digo doutor, Janeiro, triste, com chuva, com frio, com uma geadazinha pela manhã a queimar-me a pouca vida que tenho dentro.

- Bem, não sei se isto vai lá com medicamentos.

Já experimentei tudo doutor: reiki, coaching, copinhos de aloé vera, massagens com os pés, livros de auto-ajuda, escapadinhas no Gerês, comer comida de autor, ir a Fátima, ler frases inspiradoras, pôr hashtags na rede social, e nada. A verdade é essa, nada, vou a ver e Janeiro inteirinho em mim. E rios de dinheiro nisto doutor. E não me fale em divãs nem em poltronas de couro, com doutores a fazerem perguntas, não isso não é para mim. Qualquer coisinha doutor, umas gotas, um comprimidozinho, e já nem digo que tire isto, mas pelo menos que atire lá para Fevereiro ou Março, este Janeiro insuportável em mim.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Dia 119



A velhice começou-me pela barba. Embora o avanço da testa cabeça dentro a denunciasse, a velhice começou-me pela barba. A avó no natal à cabeceira da mesa, no conforto da lareira nas costas, eu na cabeceira oposta, lugar conquistado pelas crianças a fazerem-se gente, saídas do frio da copa para ascender ao olimpo familiar. A avó de longe a olhar-me com os seu olhos espiões, e eu atento ao murmúrio dos lábios,

- Coitadinho, o que lhe foi acontecer

Uma tia cúmplice ao lado, meio indignada,

- Coitadinho porquê mamã?

Ela

- Já tem brancas na barba

Sorrio-lhe, sorri-lhe sempre, quando chegava,

- Olá Fernandinha

Ela

- Ó Santiaguinho

Abraçava-a e ela desaparecia, um concentrado de avó, como uma bisnaguinha de tomate. Tinha olhos espiões, alma de crítico de cinema e língua afiada de cronista social. Eu gostava tanto dela e nunca lhe disse que gostava tanto dela. Consola-me a certeza de que o sabia, o meu amor não escaparia aos seus olhos lupa, o dela, não escapou aos meus.