sexta-feira, 29 de abril de 2011

Dia 42



O meu dedo pequenino, a bater no vidro da montra, esta papá! A tua cabeça a girar um não! Pendurado no teu braço, meio arrastado vejo a montra sumir-se... E o Verão a passar... E o meu dedo pequenino, esta papá! E já esfolei duas vezes este ano, e ela na montra... Esta papá!
O dia todo na praia, e eu pequenino ao pé deles, a vê-los pescar! Não os vi pescar nada, mas vi-os a pegar na minhoca, a mudar o anzol, a dizer mal das enguias que se ensarilhavam no fio e ia tudo à vida, anzol, chumbo, tudo cortado a canivete, e assim começavam tudo de novo, pacientes, pausados, tranquilos... O indicador na linha logo a seguir ao carreto, para adivinhar o peixe...
Quero pescar! Quero pescar! Quero pescar! Calo-me que ainda apanho!
Outra vez o meu dedo pequenino a bater no vidro, de repente, um esticão e voo para dentro da loja! Uma cana para este senhor diz o meu pai, eu assustado, uma cana, aquele carreto, uma caixa de chumbos e anzóis, três metros de corda grossa e um colete salva vidas! Eu já com medo... Entra no café e pede meia dúzia de almendrados para levar. Depois carro furioso, e vamos comprar “bicha” a uma senhora na beira da estrada. Depois para a foz do rio, faz isto tudo sem dizer palavra, mas fuma nervoso, e eu tenho medo (se calhar não devia ter insistido tanto).
Junto ao paredão encontra um amigo, pede-lhe que olhe por mim. Bufa para o colete e enfia-mo pela cabeça, senta-me na beira do paredão e ata-me com a corda a um poste, prepara a cana e diz-me para pôr o isco... Estou pronto (parece-me)... Olha para o relógio, e pela primeira vez para mim, olhos nos olhos, de homem para homem... Diz, são duas horas, às seis da tarde venho buscar-te! Põe o pacote de almendrados ao meu lado e vira costas!
Devia ter oito ou nove anos, fiquei atado ao poste, de colete, e de cana na mão, fui pescador durante quatro horas, e percebi desde o primeiro minuto o que me quiseste ensinar.
Ainda hoje, me ato às vezes ao mesmo poste, e lá fico quatro horas, à espera que chegues... Umas vezes, para me vires buscar, outras para te dizer:
 - Obrigado papá!  

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Dia 41

Não queres casar pois não? Digo casar pela igreja, com festa e muitos convidados… Não, pois não?
Nem te mexes no sofá, e a revista que folheavas está parada na mesma página há pelo menos dois minutos.
Dá muito trabalho essa coisa toda, muita preocupação. E a mim deprimem-me as noivas naquela agonia branca de tule e organza, ou em forma de rebuçado com vestidos de seda selvagem… Tristes com o penteado, com penteados que eu nunca vi… Penteados que devem atrapalhar a noite de núpcias… Não pois não?
Tanta gente, tanta pintura na cara, tantos homens estrangulados de gravata, todos eles aborrecidos… Mulheres a desafiarem a gravidade em cima de saltos vertiginosos, vestidos que apertam, sapatos que magoam… Todos eles aborrecidos, com hora marcada para se sentirem ou fingirem felizes… Tão previsíveis lágrimas, tão previsíveis sorrisos de fotografia…
Tanto cenário para tão mal inspirado elenco!
Depois há sempre um violino, na igreja, e uma voz feminina, que nunca vejo, julgo até que são sempre os mesmos… Há sempre arroz… Há sempre alguém com um fato bege… Há sempre alguém a ir ao carro para trocar de sapatos… Há sempre espumante mau…
Não queres casar pois não? Digo casar pela igreja, com festa e muitos convidados…
Continuas a folhear a revista, reparo agora que é de moda e que tem um suplemento de vestidos de noiva…
Não, pois não?

sábado, 23 de abril de 2011

Dia 40

Dei tudo à mulher a dias! Tudo! Não me faças essa cara de primeiro-ministro demissionário! Dei tudo, quer pela minha saúde mental, quer pela minha integridade física!
Sim Sara... Hoje ao sair do banho escorreguei no tapete colorido com que me armadilhaste o chão em frente à banheira, sorte que não bati com a cabeça no lavatório, torci o pé, mas não morri... Entrei furioso no quarto e estavam os “teus” tapetes beges a circundar-me a cama, qual fosso cheio de crocodilos... Arrisquei um salto bem sucedido para aterrar na dita, e caí em cima da colcha que nos deu a tua mãe... Sim esqueci-me que não se podia molhar a colcha, e ficou toda manchada e amarrotada, ainda assim a mulher a dias levou-a! Sim a colcha, que custou um balúrdio, mas que atrapalhava os nossos “rounds” de amor, porque eram precisos cinco minutos para tirá-la e dobrá-la, e lá se ia o amor todo...
E eu sei Sara, que se assim continuassem, tapetes e colchas, sofás e toalhas de mesa, almofadas e cortinados, dizia, se assim continuassem, a estorvar-nos a vida... Lá se ia o amor todo, entre vincos e dobras, manchas e nódoas, em pés obrigatoriamente descalços, lá se ia o amor todo... Sei que compreendes que casas são feitas para serem vividas... Os museus sim, são feitos para ver, sem vincos e nódoas, sem manchas e dobras...
Ir-se-ia o amor todo...Agora dei tudo... Espero por ele todo de volta... O amor todo...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Dia 39

Se queres sair e dar uma volta, vamos! Não vamos é ao shopping! Shopping, não é para passear! Bem sei que precisas muito daquela blusa, que três roupeiros cheios delas não te chegam, sei que tens uma reunião importante e só podes ir com aquela blusa, que se tornou de repente a única blusa do mundo que liga com a tua saia azul, eu sei… Que o azul daquela saia é o único azul do mundo que não liga com nada… Suponho então que vais precisar também de sapatos e carteira! Que de tão baratos que estão é quase criminoso não comprar… Eu sei… E um lencinho para compor, à volta do pescoço, pois… Sabes que vou ficar tonto, com aquela multidão de fato de treino, que vamos esperar meia hora por uma sandes de atum, que vou entornar o copo de plástico (horroroso) a ziguezaguear entre mesas para chegar à única mesa livre lá ao fundo…Que por acaso já nem está livre porque se sentou lá um casal mais rápido… Sabes que vou ter suores frios e dores de cabeça com o ar condicionado demasiado quente, e as músicas aos berros das lojas…
Pois eu sou um homem compreensivo e moderno, mas começo a ficar farto…
Por isso se quiseres ir comigo dar uma volta, vamos sair da cidade, e vamos a um monte qualquer respirar um bocadinho, um monte com uma capela, porque eu preciso de ar, de ver mimosas e giestas, de estar sossegado e livre, de mijar numa árvore, de ver a primavera, de não ter ninguém a olhar para mim, percebes?
Pois não percebes, mas eu preciso disto para viver melhor, e tu precisas daquela blusa… Eu sei…
Agora cá estou a fazer chichi (mijar é feio), contra uma árvore, está ali a capela, as mimosas e as giestas, está aqui o ar todo, que eu queria respirar, toda a primavera à minha volta, tudo predispõe o meu sossego, excepto tu… Que deves estar a lutar com outra cliente por um “xs” ou um “s”  da tal blusa…
E eu aqui sem ninguém a olhar para mim, como eu gosto, como eu gostava que gostasses, estou sossegado, estou só a olhar…
E toca o meu telefone, e já bateste com o carro num pilar do parque...Sim amor, e para que precisas de mim, se a culpa foi do pilar?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Dia 38

Passados os últimos dias a deambular preguiçoso pelas ruas do meu bairro, a parar no café, a ler o jornal, a comprar a lotaria ao senhor Antunes, a dizer bom dia a quem passa, apercebo-me que estou na vida como quero, ou seja, como sempre imaginei. E sempre me imaginei assim, despojado de todo o excesso material, com o qual me enganava e ia enganando a vida.E assim, pareço mais pobre para quem me olha, mas felizmente mais rico para quem vê; mais triste para quem me olha, mas muito mais feliz para quem vê.
Estou portanto a reduzir-me do “material” excedente, libertando espaço de alma para material afectivo.
E vou olhando, e cada vez mais vendo quem em matéria de afectos o ser humano é inesgotável.
Chamem-me burro, mas acredito, que a matéria de que somos feitos, vale infinitamente mais, do que qualquer matéria (objecto) fabricada pelo Homem, excepção feita às artes e à ciência que são o que de melhor há no mundo, o resto é lixo...

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Dia 37


Surpreender... Temos que nos deixar surpreender! Com a Inês vivi tantos anos, que mesmo quando me fazia uma surpresa, não me surpreendia. Ficava eu ali à espera de ser “grande” para partir para o desconhecido. Partir para o desconhecido assusta, mas faz-nos vivos, faz-nos sentir, faz-nos pensar e surpreender e rir e envergonhar...
Os sentimentos não se podem comparar, o amor não é mensurável, não se pode comparar se nos queremos abertos para a surpresa... A comparação limita. Uma alma aberta à surpresa, arrisca-se à imensidão do sentir.
Não sei porque te digo isto Sara, ou melhor, sei, digo-te isto para que percebas, que me aconteceste porque não procurei, por que me dei à indefinição da surpresa, à insegurança do desconhecido e não caí na tentação de comparar!
Prefiro assim em todos os testes da vida, tirar “Excelentes” e até “Medíocres”, a ter a triste monotonia de um “Satisfaz” de um “Sofrível” ou de um “Regular”. Prefiro o júbilo e o desespero, ao bocejo de um sofá!
Tenho a felicidade e o discernimento de não pôr o meu coração de pantufas e a minha alma de roupão!
Não me esqueço que o medo de sofrer, é o mesmo que me impede de ser feliz.
Por tudo isto, Sara, digo que te amo! Por isso o digo sempre que sinto, sem medo nenhum!
Porque assim, se eu morrer hoje, amanhã saberás que te amo...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Dia 36


Lurdinhas, se te digo que és linda é porque és! Não me digas que é exagero meu, que estou cego de paixão e te vejo linda por causa disso! És linda, ponto!
Vejo-os da minha mesa, a Lurdinhas vermelha como um tomate, o rapaz como um tomate vermelho.
O rapaz não dá tréguas, Lurdinhas que te amo, que te quero, que te desejo! Ela não abre a guarda, não sei Carlinhos, tenho medo, tenho dúvidas!
Penso que tantas vezes fui “Carlinhos”, que quase sei o que ela vai dizer a seguir!
Sufocas-me Carlos, preciso do meu espaço e de tempo para pensar! Foi o que pensei, e foi o que ela disse! Não fiquei contente de o ter adivinhado, mas triste por achar que, com a minha idade, já não há nada de novo aqui (debaixo do sol)...
O rapaz faz-se irritado, simula uma saída de cena, mas quando se levanta entorna o Sumol em cima da mesa. Volta a sentar-se, limpa a mesa, esfrega as calças com guardanapos. Reparo que ela o olha com ternura, e que engole a vontade de rir! Ele apercebe-se e faz-se orgulhoso. Como uma ostra, larga a pérola: Lurdinhas, és a mulher mais linda a norte e a sul do equador! Ela olhou-o desconcertada. Penso que afinal sempre há algo de novo aqui (debaixo do sol)!
Por isso sorri, quando no dia seguinte, vi o Carlos a “galope”, em direcção à igreja, com algumas velas na mão como um pagador de promessas. E, sorri ainda mais, quando soube que a Lurdinhas que lava cabeças no salão Maribel, tira à noite na faculdade, uma licenciatura em geografia!
Há sempre algo de novo aqui...


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Dia 35

Não foi preciso nada... Bastou-lhe ser... Nunca me pediu nada, nunca me ralhou nem me chamou a atenção. Nunca disse, chega-me isto ou aquilo... Nunca disse, vai arrumar, vai buscar, vai fazer. Nunca me deu um estalo... O contacto físico mais violento era um abraço ou um beijo...
Nunca me disse que não, nunca foi preciso. Nunca tinha calor ou frio, nunca estava mal disposto, nunca se aborrecia de esperar por ela, e ela demorava muito tempo a arranjar-se... Nunca tinha pressa, nunca lhe vi rugas que não as de expressão (de afectos)... Andava sempre impecável, nunca o vi comprar roupa. Nunca o ouvi discutir, ou falar alto, nunca se queixou do trabalho, nunca se queixou dela, nem da família, nem dos vizinhos, nem dos amigos, nem dos inimigos (porque não tinha). Nunca hesitava, sabia sempre onde ir, sabia sempre o que lhe apetecia comer no restaurante, era sempre ele que pagava, fôssemos dez ou cem. Nunca estava doente, nunca lhe doía nada, nem os dentes, nem a garganta. Não usava placa... Não era mulher mas usava laca. Não usava perfume. Nunca dizia palavrões, excepto um “merda” nalgumas anedotas. Não era doutor mas muitas pessoas chamavam-no assim.
Bastou-lhe ser, e a mim, bastou-me vê-lo ser para aprender...
Ah, e nunca fez a barba! Não foi avô?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dia 34


Vou a pé para casa dos meus pais, janto lá todas as quartas e todos os domingos. Demoro 15 minutos a fazer dois quilómetros, até ao início da rua sem saída onde mora a “Casa”. A minha casa de infância. Da esquina até lá são cem metros, nesses perco meia hora... Mal entro na esquina vou descendo dos meus cinquenta anos até aos cinco. O cabelo cresce, as calças encurtam para calções, a camisa aperta o botão do colarinho, dou chutos nas pedras, subo e desço as rampas das garagens... Quando bato à porta tenho as canelas cheias de negras e menos um dente, quando a minha mãe abre a porta,  tenho os olhos cheios de lágrimas (porque o “Bola” me bateu!). O que foi filho? Abraço, desinfecta, beijo, põem-te a mexer! Corro para a cozinha, pão e leite, tudo com chocolate!
Depois passeio naquela imensidão, as esquinas dos móveis são os meus piores inimigos, o relógio o monstro a abater, mas o que me vai deixando triste são as fotografias, nas fotografias só há mortos, ainda por cima a preto e branco, parece que nunca viveram...
Vai ver o pai, está no quarto! Voz de mãe é lei! Conforme subo as escadas passo dos cinco aos cinquenta...Passam os suspensórios a cinto, passa a camisa branca a estampado, passam os sapatos de sola, a sapatilhas de homem moderno, vai-se algum cabelo, enrodilha-se a cara... Olá pai! Olá filho, não te fazia aqui, e as meninas? Por momentos não sei se fala de namoradas, julgando-me ainda puto (que a memória lhe falta), ou das minhas sobrinhas. Opto por um, estão bem! Parece-me sossegado! De repente grita, uns cabrões! Quem pai? Os “pides”, uns cabrões! Sim pai uns cabrões... Parecia sossegado... O desassossego é meu...
Entra a minha mãe com a sopa, ele abre os olhos e sorri. Senta-se na cama para comer, e vê-me de novo, então filho essa Inês já te deu o divórcio? É o meu pai, este é o meu pai! Sorrio. Sim pai! E já arranjaste moça? Já pai, boa moça...Hum, tens que a trazer cá! A sopa foi-se, a minha mãe também. A minha mãe, o seu eixo da vida, o seu centro do mundo...
Voltou a deitar-se. Parece sossegado... E o Eusébio? O Eusébio? Sim o rei! Ó pai o Eusébio já não joga! Não joga? Meu filho, o Eusébio joga sempre, e marca sempre golos, mesmo quando não joga, pelo menos na minha cabeça! Sorrio, este é o meu pai... Vá toma lá vinte escudos para comprar um gelado! Choro. Este não!