O meu dedo pequenino, a bater no vidro da montra, esta papá! A tua cabeça a girar um não! Pendurado no teu braço, meio arrastado vejo a montra sumir-se... E o Verão a passar... E o meu dedo pequenino, esta papá! E já esfolei duas vezes este ano, e ela na montra... Esta papá!
O dia todo na praia, e eu pequenino ao pé deles, a vê-los pescar! Não os vi pescar nada, mas vi-os a pegar na minhoca, a mudar o anzol, a dizer mal das enguias que se ensarilhavam no fio e ia tudo à vida, anzol, chumbo, tudo cortado a canivete, e assim começavam tudo de novo, pacientes, pausados, tranquilos... O indicador na linha logo a seguir ao carreto, para adivinhar o peixe...
Quero pescar! Quero pescar! Quero pescar! Calo-me que ainda apanho!
Outra vez o meu dedo pequenino a bater no vidro, de repente, um esticão e voo para dentro da loja! Uma cana para este senhor diz o meu pai, eu assustado, uma cana, aquele carreto, uma caixa de chumbos e anzóis, três metros de corda grossa e um colete salva vidas! Eu já com medo... Entra no café e pede meia dúzia de almendrados para levar. Depois carro furioso, e vamos comprar “bicha” a uma senhora na beira da estrada. Depois para a foz do rio, faz isto tudo sem dizer palavra, mas fuma nervoso, e eu tenho medo (se calhar não devia ter insistido tanto).
Junto ao paredão encontra um amigo, pede-lhe que olhe por mim. Bufa para o colete e enfia-mo pela cabeça, senta-me na beira do paredão e ata-me com a corda a um poste, prepara a cana e diz-me para pôr o isco... Estou pronto (parece-me)... Olha para o relógio, e pela primeira vez para mim, olhos nos olhos, de homem para homem... Diz, são duas horas, às seis da tarde venho buscar-te! Põe o pacote de almendrados ao meu lado e vira costas!
Devia ter oito ou nove anos, fiquei atado ao poste, de colete, e de cana na mão, fui pescador durante quatro horas, e percebi desde o primeiro minuto o que me quiseste ensinar.
Ainda hoje, me ato às vezes ao mesmo poste, e lá fico quatro horas, à espera que chegues... Umas vezes, para me vires buscar, outras para te dizer:
- Obrigado papá!