quinta-feira, 28 de julho de 2011

Dia 56

Há dias em que só, diante desta folha, só e mal acompanhado de mim, me pergunto, como foste capaz de recusar o meu
- Queres namorar comigo?
Estive tão bem! Depois de um passeio no parque, fim de tarde, os pombos de papo cheio num reboliço de acasalamento, os patos indiferentes, os choupos a esconderem a nossa vergonha, quando surge a árvore perfeita, eu esquecido do canivete, improviso com a chave do automóvel um coração a dizer tu mais eu, traçado pelo cupido, dizia, quando surge a árvore perfeita para usar aquelas três palavras numa interrogação de embeiçado
- Queres namorar comigo?
(pergunta que até ao final do liceu nunca tinha resultado)
E tu rebentas-me um não contra o peito, que me chuta para o recreio da quarta classe, num pranto de carpideira que me incha os olhos e encolhe o coração!
Nesse dia fui embora, não insisti. Pensei acrescentar ao coração umas trágicas lágrimas de sangue, mas a negativa a educação visual e a falta de arte na navalha reprimiram-me o impulso. A esta pergunta responderam-me sempre que não, apesar dos sim implícitos de alguns, poucos, namoros.
O coração lá continua (Tu+Eu), meio torto, a reclamar cirurgia.
Perguntei-te a segunda vez, e a mesma resposta da quarta classe.
O sim chegou à terceira, numas muralhas esquecidas de um castelo.
Mas o coração lá continua (Tu+Eu) na árvore da primeira vez, e é essa que conta, porque desde pequenino sei que
-Queres namorar comigo?
se responde com um não, mas passamos a namorar.
Amor, para ser sincero, não sei o que faria se me tivesses dito que sim!




segunda-feira, 18 de julho de 2011

Dia 55


Aquilo chega devagarinho, com floreados perversos. Primeiro uma febrícula, a indiciar uma gripe, que vai sendo levada com miligramas de paracetamol, a temperatura continua e começam os telefonemas para uma consulta,
- Este mês é impossível
Tenta-se, tenta-se. Vai-se tentando, até o tempo já ser demasiado, e aparece uma cunha para uma consulta.
Exames por todo o lado. Instalam-se receios nas nossas cabeças, vários corações em alvoroço. O doutor,
-Parece que vejo aqui uma pintinha
As nossas cabeças ainda não na pintinha, as nossas cabeças talvez numa tuberculose, numa pneumonia...
Cabeças lentas de raciocínio, sob um toldo de emoções.
Arrasta-se o diagnóstico, já sabem, mas não dizem. De repente mil angústias, cinquenta, cem, duzentos corações alvoroçados!
E quando menos se espera atiram-nos com um cancro para as costas, que nos esmaga contra o mundo! Digo-vos que nos esmaga mesmo contra o mundo! O filho da puta do bicho! O resto já se sabe...
Mas fica-me a martelar
- Este mês é impossível
sempre a martelar!
Bem sei que aquilo chega devagarinho, com floreados perversos. Primeiro uma febrícula, a indiciar uma gripe, que vai sendo levada com miligramas de paracetamol, a temperatura continua e começam os telefonemas para uma consulta,
- Este mês é impossível
Eu sei que não me devia martelar, mas martela! É que aquilo esmagou-me mesmo contra o mundo! O filho da puta do bicho!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dia 54

Tão bem resolvida! Tão independente e dinâmica! Tanta alegria na tua condição, que esmorece quando dela fazes propaganda. Aí começa a tua fragilidade. Só e de bem com a vida! Percebe-se que um produto precisa de publicidade se o simples facto de existir não lhe basta. Assim é contigo, publicitas, logo desconfio.
Esperas alguém e finges não esperar, escondes-te na confortável monotonia do despertador, na malga de cereais e na aula de ginástica. Esperas sempre alguém…
Fazes da vida o passar do tempo até morrer. Esperas sempre alguém…
Morres de medo. Tremes na intimidade. Já foste mais nova. E perguntam-te
- Já casaste
e dizem que conhecem alguém para ti. Respondes
- Estou bem assim!
Um dia aparece-te alguém que não pára nos semáforos e te molha o chão da casa de banho, alguém que te parte o despertador e nem sequer gosta de cereais.
A tua prisão de conforto está ameaçada, o teu coração ameaça um motim, há lençóis a arder em todas as janelas, e gritos a clamar liberdade! Apaixonaste-te!
E de repente insegura, reprimes os amotinados e negoceias com o teu coração mais meia hora de passeio no pátio, da tua prisão de conforto. Permites-te no máximo uma prisão domiciliária, com um recluso que não se amotine. Será certamente um bom pai e um bom companheiro.
Assim sonharás, a cada semáforo vermelho, que aquele que fizeste cativo, carregue no acelerador. E à noitinha, as luzes vermelhas do despertador não te deixarão dormir, com a certeza de um pequeno-almoço de duas malgas de cereais…
Ainda que mal te pergunte, que raio me responderias se te tivesse perguntado
- Queres casar comigo?