Há dias em que só, diante desta folha, só e mal acompanhado de mim, me pergunto, como foste capaz de recusar o meu
- Queres namorar comigo?
Estive tão bem! Depois de um passeio no parque, fim de tarde, os pombos de papo cheio num reboliço de acasalamento, os patos indiferentes, os choupos a esconderem a nossa vergonha, quando surge a árvore perfeita, eu esquecido do canivete, improviso com a chave do automóvel um coração a dizer tu mais eu, traçado pelo cupido, dizia, quando surge a árvore perfeita para usar aquelas três palavras numa interrogação de embeiçado
- Queres namorar comigo?
(pergunta que até ao final do liceu nunca tinha resultado)
E tu rebentas-me um não contra o peito, que me chuta para o recreio da quarta classe, num pranto de carpideira que me incha os olhos e encolhe o coração!
Nesse dia fui embora, não insisti. Pensei acrescentar ao coração umas trágicas lágrimas de sangue, mas a negativa a educação visual e a falta de arte na navalha reprimiram-me o impulso. A esta pergunta responderam-me sempre que não, apesar dos sim implícitos de alguns, poucos, namoros.
O coração lá continua (Tu+Eu), meio torto, a reclamar cirurgia.
Perguntei-te a segunda vez, e a mesma resposta da quarta classe.
O sim chegou à terceira, numas muralhas esquecidas de um castelo.
Mas o coração lá continua (Tu+Eu) na árvore da primeira vez, e é essa que conta, porque desde pequenino sei que
-Queres namorar comigo?
se responde com um não, mas passamos a namorar.
Amor, para ser sincero, não sei o que faria se me tivesses dito que sim!