quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Dia 100 dignidade

Sentei-me na esplanada, meio da manhã, o céu um capacete cinzento a atordoar-me a cabeça.
- Um café de saco por favor.
A esplanada completamente deserta. Reparo que não deserta afinal, está na última mesa um homem só, parece que o reconheço, corpo meio debruçado sobre a mesa vazia, olha-me de cabeça baixa. Finjo ignorar. Passados segundos levanta-se, vejo-o na minha direcção pela esquina do olho, ao chegar mais perto, num andar vagaroso,
- O doutor não tem um “eurinho” para um café, é que já perguntei ao paizinho e ele hoje não tem.
Digo-lhe,
- Não mas se quiser tomar um café faça o favor de pedir.
Reconheci-o, é um homem de sessenta e poucos anos, que desde miúdo conheço das cercanias da loja do meu pai, e que já desde o escudo pedia para café, e já agora um cigarrinho também.
O homem não sei se surpreendido pela minha oferta, senta-se na mesa.
É um homem normal, evidência nenhuma de pedinte, mas de andar vagaroso e cansado, olhos que não dizem coisa nenhuma, espécie de muro de sofrimento.
Nos segundos, poucos, em que me levanto para pedir,
- Outro café de saco por favor
rouba-me um cigarro do maço que estava na mesa, as mãos pequenas denunciam-lhe o furto, porque o filtro do cigarro a espreitar da mão fechada. Fingi não ver, na solidariedade fraterna de toxicodependente.
-Este tempo faz-me mal, este céu de chumbo, este calor.
Todo ele depressão profunda,
- Reformaram-me aos vinte e oito anos, reforma de duzentos e tal euros.
Discorreu, bem falante, sobre o estado do pais, da europa e do mundo. Ainda que vivo, eu ainda não tinha percebido o que o matara.
- E sabe doutor, o que me fodeu foi Nampula, isso é que me fodeu.
Pensei que a ele e a centenas de milhares de portugueses.
Agora quando o vejo pago-lhe um café e dois cigarros para o caminho, por conta do Estado e da Liga dos Combatentes.  

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Dia 99

Como te conhecia há pouco tempo, portanto em fase de ganhar pontos na tua admiração, aceitei uma tarde de compras a dois. Para mim um recém namoro apaixonado e inesperado. Inesperado no sentido de a tua secretária ao lado da minha lá no serviço, e nunca sequer mais que um olá, circunstancial e simpático. Nunca atrevido ou insinuante como na televisão, daqueles que respingam sensualidade e antecedem um

- Queres jantar em minha casa na sexta?

Sucede que num dia de azáfama maior lá no serviço, o teu saca agrafos encrava e tu pedes o meu de empréstimo (o meu é daqueles que tem o meu nome escrito num papelinho colado com fita cola, que aqui no trabalho já se sabe, tudo desaparece), acto contínuo, o teu perfume entra por mim dentro com semelhante força que reparo que tu, respingando sensualidade, atiras

- Queres jantar em minha casa na sexta?
Começamos então a namorar e logo no sábado seguinte, dizes-me que precisas de ver umas coisinhas lá no centro comercial

- Umas nicas de nada.

Eu inocente fui. Fui, mas nunca mais vou! Que para mim

- Umas nicas de nada
não demoram sete horas a escolher, num entra e sai furioso das lojas, a cobiçar o que outras estão a experimentar, eu sem saber sequer o que procuravas. Enfim, resumiu-se esta eternidade a um pacote de elásticos para o cabelo (de cores variadas, mas só usas os pretos) e a um pijama com gatinhos (camisola e calça comprida) que contradiz o teu sorriso sensual. Portanto na segunda-feira quero o saca agrafos na minha secretária, se é que ainda o tens, e nunca mais me sorrias a respingar seja o que for. Percebeste?