- Um café de saco por favor.
A esplanada completamente deserta. Reparo que não deserta afinal, está na última mesa um homem só, parece que o reconheço, corpo meio debruçado sobre a mesa vazia, olha-me de cabeça baixa. Finjo ignorar. Passados segundos levanta-se, vejo-o na minha direcção pela esquina do olho, ao chegar mais perto, num andar vagaroso,
- O doutor não tem um “eurinho” para um café, é que já perguntei ao paizinho e ele hoje não tem.
Digo-lhe,
- Não mas se quiser tomar um café faça o favor de pedir.
Reconheci-o, é um homem de sessenta e poucos anos, que desde miúdo conheço das cercanias da loja do meu pai, e que já desde o escudo pedia para café, e já agora um cigarrinho também.
O homem não sei se surpreendido pela minha oferta, senta-se na mesa.
É um homem normal, evidência nenhuma de pedinte, mas de andar vagaroso e cansado, olhos que não dizem coisa nenhuma, espécie de muro de sofrimento.
Nos segundos, poucos, em que me levanto para pedir,
- Outro café de saco por favor
rouba-me um cigarro do maço que estava na mesa, as mãos pequenas denunciam-lhe o furto, porque o filtro do cigarro a espreitar da mão fechada. Fingi não ver, na solidariedade fraterna de toxicodependente.
-Este tempo faz-me mal, este céu de chumbo, este calor.
Todo ele depressão profunda,
- Reformaram-me aos vinte e oito anos, reforma de duzentos e tal euros.
Discorreu, bem falante, sobre o estado do pais, da europa e do mundo. Ainda que vivo, eu ainda não tinha percebido o que o matara.
- E sabe doutor, o que me fodeu foi Nampula, isso é que me fodeu.
Pensei que a ele e a centenas de milhares de portugueses.
Agora quando o vejo pago-lhe um café e dois cigarros para o caminho, por conta do Estado e da Liga dos Combatentes.