Não fosse tarde
e escrevia-te uma carta, cheia de nomes. Feios. Não daquelas,
Ó vil mulher
que meu coração dilaceraste...
Porque estas
demasiado educadas e poéticas, ao jeito de poetas sofredores de outros tempos. Esta
seria mais moderna (ao teu jeito), cheia de nomes feios e palavrões cabeludos
daqueles que até fazem cócegas nos ouvidos. Era o que merecias. Não fosse já
tarde era o que levavas. Acontece que o eu moderno se incompatibiliza com o eu
poético e sofredor de outros tempos, e a mão foge-me para,
Ó vil mulher
que meu coração dilaceraste…
E continuo a
passar na tua rua de vez em quando, a tentar ver-te para lá da fortaleza dos
muros. Nunca te vejo.
Sucede que há dias,
passei lá de novo, como sempre não te vi, mas desta vez o teu carro à porta,
reparei que todo sujo, com o vidro de trás todo empoeirado, mesmo a pedir um
dedo escrevedor de puto malandro que lá deixasse um,
“Lava-me porco!”
E como o meu eu puto se incompatibiliza bastas
vezes com o meu eu adulto, saí do carro, e sorrateiramente desenhei a clássica
frase. Estaria tudo bem se o meu eu moderno não se deixasse superiorizar pelo
meu eu poético e sofredor de outros tempos dado que,
“Lava-me ó vil
mulher que meu coração dilaceraste”
não me parece
bem um insulto, nem sequer um nome feio.