sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dia 34


Vou a pé para casa dos meus pais, janto lá todas as quartas e todos os domingos. Demoro 15 minutos a fazer dois quilómetros, até ao início da rua sem saída onde mora a “Casa”. A minha casa de infância. Da esquina até lá são cem metros, nesses perco meia hora... Mal entro na esquina vou descendo dos meus cinquenta anos até aos cinco. O cabelo cresce, as calças encurtam para calções, a camisa aperta o botão do colarinho, dou chutos nas pedras, subo e desço as rampas das garagens... Quando bato à porta tenho as canelas cheias de negras e menos um dente, quando a minha mãe abre a porta,  tenho os olhos cheios de lágrimas (porque o “Bola” me bateu!). O que foi filho? Abraço, desinfecta, beijo, põem-te a mexer! Corro para a cozinha, pão e leite, tudo com chocolate!
Depois passeio naquela imensidão, as esquinas dos móveis são os meus piores inimigos, o relógio o monstro a abater, mas o que me vai deixando triste são as fotografias, nas fotografias só há mortos, ainda por cima a preto e branco, parece que nunca viveram...
Vai ver o pai, está no quarto! Voz de mãe é lei! Conforme subo as escadas passo dos cinco aos cinquenta...Passam os suspensórios a cinto, passa a camisa branca a estampado, passam os sapatos de sola, a sapatilhas de homem moderno, vai-se algum cabelo, enrodilha-se a cara... Olá pai! Olá filho, não te fazia aqui, e as meninas? Por momentos não sei se fala de namoradas, julgando-me ainda puto (que a memória lhe falta), ou das minhas sobrinhas. Opto por um, estão bem! Parece-me sossegado! De repente grita, uns cabrões! Quem pai? Os “pides”, uns cabrões! Sim pai uns cabrões... Parecia sossegado... O desassossego é meu...
Entra a minha mãe com a sopa, ele abre os olhos e sorri. Senta-se na cama para comer, e vê-me de novo, então filho essa Inês já te deu o divórcio? É o meu pai, este é o meu pai! Sorrio. Sim pai! E já arranjaste moça? Já pai, boa moça...Hum, tens que a trazer cá! A sopa foi-se, a minha mãe também. A minha mãe, o seu eixo da vida, o seu centro do mundo...
Voltou a deitar-se. Parece sossegado... E o Eusébio? O Eusébio? Sim o rei! Ó pai o Eusébio já não joga! Não joga? Meu filho, o Eusébio joga sempre, e marca sempre golos, mesmo quando não joga, pelo menos na minha cabeça! Sorrio, este é o meu pai... Vá toma lá vinte escudos para comprar um gelado! Choro. Este não!