terça-feira, 22 de novembro de 2011

Dia 64


Hoje fiz sopa. A minha primeira sopa. A primeira incursão no mundo das leguminosas e tubérculos, à laia de Chef giro de turbante na cabeça. Será que o gajo dorme com aquilo?
Hoje fiz sopa. E de repente uma alegria infantil, entre panelas de alumínio, descascadores, facas, pitadas de sal, dentinhos de alho, cebolas a chorar nos olhos, o fiozinho de azeite a escorrer majestoso.
Hoje fiz sopa. E de repente uma vontade imensa de te dizer,
- Mãe, hoje fiz sopa!
E já não mãe a sorrir para dizer,
- Já tens idade...
E já não mãe a perguntar,
-  Fizeste assim, fizeste assado, azeite no fim ou no princípio, cuidado com o sal filho, puseste alho?
Hoje fiz sopa, e parece que caiu uma bomba na cozinha, não fora esta desarrumação e poder-se-ia dizer que até parecia Pessoa, não o Fernando da “Mensagem”, o outro engomadinho que aparece na televisão, em trejeitos delicados a afagar folhinhas de louro e raminhos de salsa.
Hoje fiz sopa, e continua a vontade imensa de te dizer,
- Mãe, hoje fiz sopa
E já não mãe a perguntar,
- Estava boa?
Não te respondo, porque sei que hás-de arranjar maneira de a provar.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Dia 63


Tenho pena que tenhas partido. A gente sentava-se aqui no quentinho do sofá, de mantinha sobre os joelhos, e passávamos horas a ver televisão.
Durante a semana, eu na repartição, tu a dias a desempoeirar fardas na casa do senhor coronel.
Durante a semana, eu a esborrachar carimbos em impressos, tu apressada e diligente nos labores domésticos na casa quartel do senhor coronel, de repente
 - Conceição
Tu de cabeça baixa
 - Sim senhor coronel, diga senhor coronel
Ele em tom grave de sacerdote
 - Esta camisa está mal passada
e tu nervosa, em hesitações de formiga, já de tábua e ferro na mão para acabar com os vincos.
Eu na repartição e de repente
 - Pereira
E eu logo em passo miúdo a bater pala em frente à secretária
- Sim chefe
Ele a olhar o impresso 2B
 - Este carimbo está ao contrário
e eu a toque de caixa a correr para a secretária a pensar como pude falhar aquele carimbo.
Éramos felizes, não éramos?
Depois chegava o fim de semana, dobrávamos os pijamas e fazíamos a cama de lavado. Eu lia aquele jornal pesado que vinha num saco de plástico, enquanto tu, meu amor, davas um jeitinho à casa.
Sábado à tarde, tu de rolos na cabeça, eu, se tempo bom, abrilhantava os cromados ao automóvel.
Depois a gente sentava-se aqui no quentinho do sofá...
Domingo os teus pais no automóvel, almoçávamos na churrasqueira, depois um passeio a pé para “desmoer”, tu à frente com a tua mãe eu atrás com o teu pai.
Éramos felizes.
O nosso Toni em Coimbra para ser doutor.
E tu partiste.
Ainda assim ao domingo, pego nos teus pais e rumamos à churrasqueira, guardo sempre o teu lugar, com prato, copo e talheres, no caso de apareceres.
Dizem-me, eu não acredito, que passaste de mulher a dias do coronel, para mulher a dias e noites, dizem-me, eu não acredito. Não te esqueças de tomar as gotinhas para a tensão meu amor.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Dia 62


Era adolescente e apaixonei-me por ti. Eras adolescente e apaixonaste-te pelo gajo mais velho da turma, que tinha mota, botas texanas e blusão de penas, e fumava como gente grande. Eu era muito magro e alto, não fumava e não tinha roupas da moda. Os meus pais proibiram-me a mota, as botas e o blusão que daria mais volume ao meu corpo esquelético.
Fomos um dia na excursão do liceu, eu a mirar-te embeiçado, e tu, no último banco da camioneta, fizeste liceu Conímbriga, num só beijo de língua, com o tal palhaço da mota. Saímos para o piquenique e reparei nas tuas maçãs do rosto vermelhas e nos olhos piscos derivado aos beijos e “amassos” do ilustre “três vezes repetente” do sétimo ano. Como podia competir com esse galifão, já de rosto sem espinhas, cigarro ao canto da boca, botas calças e blusão da moda, campeão de porrada no recreio, fumador de charros atrás do pavilhão, provocador de suspiros nas aulas de educação física?
Ainda tentei seduzir-te oferecendo-te cadernos fofinhos com bonecos ainda mais fofinhos, papel de carta com perfume, borrachinhas em forma de coração, pastilhas elásticas e gulodices de todo o género. Em vão!
Por quem quer que me apaixonasse, lá vinha um repetente que me matava o sonho. Sempre que passava por ti, ficava vermelho envergonhado, sem saber sequer como andar, nunca sequer um olá me deste.
Há dias passaste por mim na rua, e olha que já passaram mais de vinte anos, e pela primeira vez disseste-me olá, pelos teus olhos e sorriso, pareceu-me que me achaste giro. Mas agora que importa? Achei-te gorda e desmazelada, a empurrares o carrinho de bebé numa tristeza de domingo de inverno.
Mas que fique desde já aqui a ressalva, contra repetentes (que fumam e andam de mota e têm roupa da moda) não tenho nada,  tenho é inveja de me terem roubado para aí dez mulheres da minha vida!