Hoje fiz sopa. A minha primeira sopa. A primeira incursão no mundo das leguminosas e tubérculos, à laia de Chef giro de turbante na cabeça. Será que o gajo dorme com aquilo?
Hoje fiz sopa. E de repente uma alegria infantil, entre panelas de alumínio, descascadores, facas, pitadas de sal, dentinhos de alho, cebolas a chorar nos olhos, o fiozinho de azeite a escorrer majestoso.
Hoje fiz sopa. E de repente uma vontade imensa de te dizer,
- Mãe, hoje fiz sopa!
E já não mãe a sorrir para dizer,
- Já tens idade...
E já não mãe a perguntar,
- Fizeste assim, fizeste assado, azeite no fim ou no princípio, cuidado com o sal filho, puseste alho?
Hoje fiz sopa, e parece que caiu uma bomba na cozinha, não fora esta desarrumação e poder-se-ia dizer que até parecia Pessoa, não o Fernando da “Mensagem”, o outro engomadinho que aparece na televisão, em trejeitos delicados a afagar folhinhas de louro e raminhos de salsa.
Hoje fiz sopa, e continua a vontade imensa de te dizer,
- Mãe, hoje fiz sopa
E já não mãe a perguntar,
- Estava boa?
Não te respondo, porque sei que hás-de arranjar maneira de a provar.