segunda-feira, 30 de maio de 2011

Dia 49


Não me apetece nada ir à festa com os teus amigos... Ficava aqui sossegado e tu ias sozinha, provavelmente divertias-te mais! Só de imaginar vestir o smoking e ficar com aquela faixa de forcado amador ao redor da barriga a comprimir-me as entranhas... Mas tu achas o máximo, todo este espalhafato, vai estar lá o ministro, o administrador, e tal e tal... Não gosto de conviver com ministros e administradores, nem de Deus nem de condomínio.
Vão estar lá aqueles teus amigos (super novos e super giros) todos também de forcados amadores, a tentarem pegar-te, seja de caras seja de cernelha... Eu vou ficar incomodado... Sabes porque me irritam os teus amigos, não sabes? Não te lembras? Pronto eu digo-te, não gosto porque são uma cambada de presunçosos, meninos ricos da cidade, que sabem tudo, opinam sobre tudo, acham tudo muito interessante, discutem acções e taxas de juro, carros e barcos, viagens e férias! Não me reconheço em nenhum! Sou calado, as conversas aborrecem-me, distraio-me a meio, e fico a acenar com a cabeça...
Portanto parece que não tenho remédio, fato de macaco de rico, com uma faixa preta em redor de mim, um másculo lacinho de seda, um sapato de verniz brilhante a lembrar primeiras comunhões, poupa esculpida a gel, e lá estou eu, de forcado entre forcados, todos a quererem ser o primeiro ou segundo ajuda nas pegas que vão fazendo às mulheres e eu por aqui a dar ares de sonso, porque para vos ser franco, sempre desejei ser o oitavo forcado... Sim aquele que fica atrás, e a quem chamam o rabejador!



terça-feira, 24 de maio de 2011

Dia 48

Da viagem que fiz de automóvel, sozinho, ficaram-me coisas tuas, pensamentos de ti. Conduzia (sozinho) e crescia a saudade, provavelmente porque guiava de costas para onde tu estavas. Provavelmente porque me ia embora de ti, para um sítio onde ninguém me espera. Um sítio que de tão só meu, está exactamente como eu quero, tirando tu...
A viagem percorreu todo o fim da tarde, e como eu gosto dos fins de tarde de primavera e verão! E aí, um pensamento de ti caiu-me na cabeça, a ideia do teu rosto (lindo, o teu rosto) e a ideia de que ele é o mais lindo fim de tarde da minha vida. Tem uma beleza escondida, que descobri agora, uma calma e uma ternura que se fazem num pôr-do-sol... O teu rosto é um pôr-do-sol eterno, que nunca se chega a pôr, fica ali, lindo, na fímbria do horizonte, uma luz de afectos, que se abre com o sorriso, que uns olhos de sol brilhante mais iluminam.
Eu aqui a querer explicar o teu rosto… Tonto… Eu aqui a querer explicar o teu rosto e só me lembro daquele sol a querer pôr-se e o teu rosto a não deixar, a mantê-lo ali, suspenso, perfeito, e eu, bem aventurado homem que posso vê-lo!
Eu aqui a esforçar-me, a querer explicar o teu rosto, e a caneta (hoje escrevi com caneta) a dar-lhe para o fim de tarde… Desisto! Segue, segue, que eu não me importo que escrevas sozinha, põe-me só um ponto de exclamação no final por favor.
É assim, um fim de tarde calmo, um pôr-de-sol que não se põe, e que carrega todo o bem de que és feita...
Ensina-me esse teu rosto!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Dia 47

Já te perdoei! A ti não! A ti! A ti perdoei tudo, perdoei o tempo que me gastaste a tentares fazer-me o que querias que eu fosse, o tempo que me consumiste a tentares fazer-te normal, como toda a gente, e por consequência a tentares normalizar-me a mim, como se a minha anormalidade não fosse normal em mim, é nessa anormalidade que me sinto bem, nesse registo marginal, a ler escritores que não vendem, a ver filmes franceses, a ouvir canções que nunca estão nos tops... Era por isso que também gostavas de mim, não era? Ás vezes ouvia-te falar com outras pessoas
-Ele lê muito!
E era assim simultaneamente “culto” e anormal!
Agora a ti não, não perdoei nada, sim estou a falar contigo, não perdoei nada, não sei por onde começar... Tu nem sequer me tentaste normalizar, deixaste-me ser anormal, e foste embora a encolher os ombros como se não pudesses fazer nada, e isso não te perdoo, podias ter tentado, era normal... Eu a querer que tentasses, eu a querer que me normalizasses, e tu, trucla! O indicador atrás do polegar e, trucla, mandas-me um piparote, como se fosse uma bolinha de miolo de pão, por ali fora, até cair na outra ponta da mesa, e resignar-me  à condição de miolo de pão embolado, a aspirar a papo-seco! Triste migalha a dar ares de rosca!
Podias ao menos ter gritado
- Anormal! Acorda!
Aí sim, eu acordaria, ou não... Pensemos que acordaria, vestiria a fatiota da normalidade, passaria a falar do tempo nos elevadores, boa tarde senhor doutor, teria um rendimento permanente e elevado, como está senhor engenheiro, faríamos amor às quartas, antes da sessão da noite, sem grandes preliminares, para não perdermos o genérico do filme (Onde entra sempre o mesmo actor, o Starring, ás vezes o filho, o Also Starring), lerias a tal de Rebelo Pinto, eu leria suplementos de economia e, a espaços, poria os olhos num qualquer compêndio de “qualquer coisa para totós”. Faríamos viagens giríssimas, para podermos contar a toda a gente! Gostaríamos de sushi e teríamos filhos.
Seríamos assim felizes na normalidade dos outros, e comungaríamos assim, a nossa vida de merda!
A ti perdoei tudo, e a ti, também me parece que sim!


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Dia 46

Quem dera que me levasses para onde ninguém nos visse… Ecoa-me esta frase inteira, sem pontos nem vírgulas, esta frase toda, todo o dia, toda a semana. Até chegar ao fim-de-semana, ao momento doloroso da tua pergunta, onde vamos?
- Leva-me
- Queres passar na minha mãe, comemos lá qualquer coisa?
- Leva-me só
Dou-te a chave do carro e sento-me no teu lugar… Peço-te que me leves, só isso! Leva-me e deixa-me ficar só contigo… Só quero ir…
Quem dera que me levasses para onde ninguém nos visse… Esta frase inteira, esta frase toda, dentro e a toda a volta de mim. Não quero a tua mãe, quero que me leves, não me perguntes, não, não tenho fome, não me perguntes nada, não quero saber para onde, leva-me só!
Estou cheio de carne assada, não, não tenho fome… Panados com arroz de tomate, se alguém me fizesse panados com arroz de tomate, mas não tu, alguém que me fazia panados com arroz de tomate, e nunca mais me fez…
Tenta levar-me então para onde ninguém nos veja, não sei se vais conseguir… Preocupas-te demais com amanhã, eu peço-te agora, leva-me! Leva-me dos fins-de-semana de carne assada, leva-me dos ovos mexidos de domingo à noite, leva-me dos olhos de toda a gente… Leva-me para a simplicidade de um colo em que nunca mais chorei, leva-me para a certeza deliciosa de uns panados com arroz de tomate, e para um beijo carinhoso, antes da noite, depois de um,
- Dorme bem filho!
ou
- Até amanhã se Deus quiser!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Dia 45


O que é isto que faço, sentado na ponta da mesa, que já foi de nós todos? Que é feito de vós? Não sinto o cheiro, onde está o assado? Estão cá os pratos, os copos... As argolas dos guardanapos com os vossos nomes... Quem quer sopa? Eu... Eu quero sopa, não sei se me estão a ouvir... Só um fundinho... Bonita ficava a casa, cozinha atarefada num chinfrim de panelas! É preciso uma faca! Eu posso ficar no sítio do costume? Falo, mas estou sozinho no sítio do costume... Que é feito de vós? Agora sim o cheiro, mas sem assado... Que bebem? O frigorífico está cheio de garrafas vazias... Água! Tenho que compor a despensa, apanham-me desprevenido... Mais branco que tinto, sempre mais branco, eu sei, deixa-me anotar... P’rá mesa! Tu ali, tu ali, tu aqui! Eu posso... Cuidado meninos, deixem passar, a travessa está quente! Eu posso ficar no lugar... Ela ali, ele ali! Quem traz guardanapos? Pois, fui eu a pôr a mesa, esqueço-me sempre, vou buscar... Se puder ficar no lugar do... Sim, e uma colher para o arroz... Agora que todos sentados, não vejo o lugar do costume...O meu lugar... Não, por favor, não me apareçam todos ao mesmo tempo, tenho que dar um jeito à casa, compor a despensa... O que faço sentado na ponta da mesa que já foi de nós todos...
Ouçam, peço-vos, por favor, para a próxima, avisem-me que não vêm jantar, pode ser?

sábado, 7 de maio de 2011

Dia 44


Entro na casa mortuária, contígua à igreja. A igreja demasiado moderna para ser bonita. A casa mortuária demasiado pequena, para as almas que por lá passam. Desta vez o pai de um amigo, já não é o primeiro, envelhece-se e a morte começa a caminhar ao nosso lado... Entro portanto na casa mortuária, contígua à igreja, o ambiente não é pesado, é solene digamos. Várias pessoas me olham, a maioria senhoras, mais antigas que a igreja (que é demasiado moderna). Todas elas de preto, havia de jurar que nenhuma delas conhecia o defunto, a viúva a velar o caixão, ela sim de preto, de preto murcho de desgosto. Aproximo-me dela, um abraço comovido, um abraço molhado de tristeza e lágrimas de rímel no meu peito. Coloco-me em frente ao caixão e faço a única coisa que sei fazer nesta circunstância: agradecer a quem lá está! Parece que rezo, mas não, obrigado pela amizade, obrigado pelo carinho, obrigado pelos copos de vinho numa mesa partilhada, obrigado por aquele abraço em uníssono a gritar golo, obrigado por tudo e obrigado por nada... Enquanto ali estou, sei que estou a ser olhado, e estou, olhos não desmaiados de dor, mas sim demasiado vivos de curiosidade avaliam-me a fé. Começo a ficar desconfortável nesta posição, e uma das antiguidades femininas, com olhos reprovadores, de pestanas como patas de barata a tremelicarem rapidamente, parece que me pergunta, e o sinal da cruz menino?
Eu ali a agradecer, e a pensar na sua alma, e as pestanas de patas de barata a inquirirem trémulas, e o sinal da cruz menino? Eu a pensar na sua alma (do morto), a pensar em que momento sobe ao céu, se sobe ao céu... Os cabelos de “farandol” da antiguidade feminina sempre, e o sinal da cruz menino? E eu a lembrar-me de uma valente chapada que o meu pai me deu, quando lhe perguntei se as casas mortuárias eram uma espécie de Cabo Canaveral da alma!  E o sinal da cruz menino? Não me contenho, afasto-me do caixão (sem sinal da cruz) e curvo-me num cumprimento solene à santa inquisição em forma de senhora, um cumprimento, oleoso de creme, e sussurro-lhe: Bom homem o Sr. Manuel Mendonça! Bom homem menino, do mais santo que já conheci! Sorrio para dentro, e aproximo-me da mesinha, para assinar o livro de condolências, onde está a fotografia do defunto, que diz em cima: “António da Silva Oliveira”. Levanto as golas com um sorriso meio desgosto, e penso que foi a primeira vez que fugi à inquisição!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Dia 43

Há dias assim, folha branca que agonia! Folha branca a pedir tinta, e o cérebro sem tinteiro, e os dedos, jactos de tinta, a hesitarem na tecla…
Hoje calhou na tecla “H”! Letra surda e muda, que mesmo que queiramos não a conseguimos dizer, e por muito que tentemos não a conseguimos ouvir. Eu cá não consigo dizer os “agás”.
Há muito que te queria dizer tudo o que há em mim! Mas os “agás” só existem escritos… como poderias saber o que há em mim?
Agora sim, por escrito é mais fácil, há amor por ti em mim, há e há muito tempo, sem que to dissesse, porque esperava a hora “agá”, para te dizer que há um amor profundo e incondicional em mim… Por ti…
Acho até que vou usar “agás” em tudo o que te escrever, para que em tudo haja todo o amor que há em mim.
Assim se dúvidas houver de todo o amor que há por ti em mim, hás-de lembrar este texto, e que há (com “agá”) amor em mim, por ti…
Há e haverá sempre. Ah, há com “agá, claro está!