A tua
mãe cá em casa. De manhã oiço-lhe o arrastar dos chinelos para a casa de banho,
depois a descarga do autoclismo, e lá sai ela de camisa de noite e roupão
branco, em passos curtos e cansados numa dignidade curvada de Papa. Segue para
a cozinha na intenção gulosa do pão com manteiga embebido na cevada. Mal nos
vê pelo canto dos óculos,
- Hoje
não cerrei olho!
Enumerando
em seguida todas as maleitas de que padece, num encadeado de ai Jesus, Senhor
pai santo, Virgem santíssima, alternado por migalhas, cevada com manteiga a
boiar, e a placa a teimar em sair-lhe da boca necessitada da cola que a segura
às gengivas.
Diz que
não cerra olho noite nenhuma, mas ronca em todas elas, naquele inspirar
cavernoso que depois expele em assobio.
Sempre
admirei pessoas idosas, gosto da tua mãe aqui, e dado que a minha nem sequer
tempo teve de usar placa, comprei-lhe uma flor para o dia da mãe, porque a tua
mãe há só uma.