quarta-feira, 1 de maio de 2013

Dia 94

A tua mãe cá em casa. De manhã oiço-lhe o arrastar dos chinelos para a casa de banho, depois a descarga do autoclismo, e lá sai ela de camisa de noite e roupão branco, em passos curtos e cansados numa dignidade curvada de Papa. Segue para a cozinha na intenção gulosa do pão com manteiga embebido na cevada. Mal nos vê pelo canto dos óculos,

- Hoje não cerrei olho!

Enumerando em seguida todas as maleitas de que padece, num encadeado de ai Jesus, Senhor pai santo, Virgem santíssima, alternado por migalhas, cevada com manteiga a boiar, e a placa a teimar em sair-lhe da boca necessitada da cola que a segura às gengivas.

Diz que não cerra olho noite nenhuma, mas ronca em todas elas, naquele inspirar cavernoso que depois expele em assobio.

Sempre admirei pessoas idosas, gosto da tua mãe aqui, e dado que a minha nem sequer tempo teve de usar placa, comprei-lhe uma flor para o dia da mãe, porque a tua mãe há só uma.