Quando estou aqui, a montar palavras, letrinha por letrinha para que encadeadas
façam sentido, estou só e sem barulho, mas a televisão de companhia,
silenciosa. Sucede que há dias, a passar canais (só quatro) tentando escolher (quatro
sobram-me perfeitamente), entre o maior especialista em economia, o segundo e o
terceiro maior, o dedo calca a tecla que os cala e surge pujante um animal que
grita,
- É outra vez natal!
Numa ladainha ensurdecedora de rimas emparelhadas, que tornam
imediatamente a minha sobrinha de quatro anos em prémio nobel da literatura. O
animal (demasiado) insinuante, já me pareceu mais gordo, mas deduzo que tal
como noventa e nove por cento da população portuguesa, deve ter começado a
correr. Mal oiço,
- É outra vez natal!
sai-me um,
- Oh caralho!
eu sei que um
- Oh caralho!
pode não ficar bem aqui, mas
- Oh caralho
foi o que me saiu, seguido do pensamento
- Ainda não comprei nada.
Numa manobra arriscada, fui
a um centro comercial, saí vivo, mas não ileso. Elaborei um plano, para não
coincidir com toda a gente,
Oh caralho!
Falhou. E gente aos magotes. Eu detesto gente aos magotes, e eu no
magote de gente portanto a detestar-me.
Gosto mais de pessoas. O meu natal são
pessoas, e essas não aos magotes, são raras e únicas e porque únicas: faltam-me. Faltam-me pessoas no presépio. Talvez que para
o ano convide o animal, porque parece que,
- É festa total!
Seja lá o que isso for.
O médico
estava na secretária, calado, tapado pelas folhas dos exames, só lhe via os
dedos gordos, com uma aliança a estrangular-lhe o anelar esquerdo, e um anel de
curso (julgo que de curso) garboso, no mindinho direito.
- É grave
doutor?
Silenciou-se
ainda mais, num franzir de testa que me pôs ansioso. Não era simpático. Bem, não
era simpático, na bitola que baliza as pessoas que não doutores, porque a
simpatia dos doutores não se mede pela do homem comum. Um pequeno sorriso de um
doutor, vale o mesmo que mil sorrisos da gente.
- Pois é
amigo Ferreira.
Disse
simpaticamente (simpaticamente?)
- O meu
amigo está com que idade?
- Oitenta
senhor doutor.
- Pois é,
pois é… Já é um bocadinho.
Permaneceu
calado mais um pedaço, com os exames da cabeça para cá e para lá, a virá-los
para cima e para baixo numa caixa de luz branca. Para mim pode dizer seja o que
for, que tenho a certeza que é da cabeça, as análises ao sangue bem, as tensões
bem também, para mim a mesma doença da cabeça que o meu pai. De repente
apagou-se no sofá, com os olhos muito abertos a fixar sabe-se lá o quê, deixou
de falar, e assim durante anos, até nos ligarem do lar, a dizer que se foi.
Lembro-me que no início, sem perceber bem que raio lhe sucedia, lhe perguntava
- Como se
sente paizinho?
Ele ficava
ali parado que tempos, de olhos arregalados para mim…
- Pois é
senhor Ferreira
Voltou de
repente o médico
- Como se
sente?
- Bem
senhor doutor, como explicar, sinto-me longe.
E era isso
que dizia o paizinho, de olhos arregalados e desconhecidos de mim, a cortar um
silêncio longo,
- Sinto-me longe.
Não sou
muito letrado. Quando mais novo, os meus pais derivado ao dinheiro a fazer-se
curto, mandaram-me para a padaria do Abílio e no Abílio até hoje. Fiquei-me
pelo nono ano. Mas amanho-me bem com as contas da farinha e do fermento e sou
eu que preencho as papeladas para o Abílio. Não sou muito endinheirado. O pão
cada vez sai menos, mesmo com as artimanhas do Abílio a subtrair farinha e sal
ao pão, não me consegue pagar grande coisa, às vezes nem paga, tenho-lhe afecto
e não reclamo. Mas estou eu para aqui a falar sozinho, e ainda não sei nada de
ti. Que leste o anúncio já sei, dado que os dois aqui. Sei que também o nono
ano, que não endinheirada. Parece-me que bem um para o outro. Não mencionei este
jeitinho na perna, porque me pareceu irrelevante, e mais palavras no anúncio
mais dinheiro, sabes como é. Já umas dezenas deles e só tu apareceste. Da
calvície também não falei derivado àquela coisa: é dos carecas que elas gostam
mais. Tirando o que me falta (o dinheiro, a escola, uns centímetros na perna, o
cabelo), tenho tudo para gostares de mim. Pareces-me bem, gosto desse teu ar
poético e meio distante, de quem está aqui e não está, se calhar por essa
capacidade (que também não mencionaste) de um olho focado em mim e outro três
mesas ao lado.