O sol derretia a tarde de Agosto. Um verão cruel a
fazer-me líquido. E em mim Janeiro. Janeiro em mim o ano todo. Raiozinho de sol
nenhum. Percebe? Há pouca vida sem um raiozinho de sol. Cabe-me o inverno
inteiro dentro do peito. Será possível, um verão tão poderoso lá fora, e eu a
carregar Janeiro para todo o lado? O doutor por acaso não me arranja uma
pastilhinha, qualquer coisa, a ver se arrebito? O médico a olhar para mim pelas
persianas semicerradas dos olhos,
- Janeiro?
É como lhe digo doutor, Janeiro, triste, com chuva, com
frio, com uma geadazinha pela manhã a queimar-me a pouca vida que tenho dentro.
- Bem, não sei se isto vai lá com medicamentos.
Já experimentei tudo doutor: reiki, coaching, copinhos
de aloé vera, massagens com os pés, livros de auto-ajuda, escapadinhas no Gerês,
comer comida de autor, ir a Fátima, ler frases inspiradoras, pôr hashtags na
rede social, e nada. A verdade é essa, nada, vou a ver e Janeiro inteirinho em
mim. E rios de dinheiro nisto doutor. E não me fale em divãs nem em poltronas
de couro, com doutores a fazerem perguntas, não isso não é para mim. Qualquer
coisinha doutor, umas gotas, um comprimidozinho, e já nem digo que tire isto,
mas pelo menos que atire lá para Fevereiro ou Março, este Janeiro insuportável
em mim.