terça-feira, 28 de junho de 2011

Dia 53


A vida sem ruído, toda a vida sem ruído! Como tento! Mas tanto, tanto ruído! Fico a tentar ouvir o silêncio, perto do silêncio de eu criança, a fechar os olhos para dormir. Para dormir, não para tentar dormir! Eu adulto tento, eu criança durmo. Agora um berbequim no andar de cima, depois um berbequim na alma, a furar-nos a pedra do nosso silêncio, a esculpir ansiedades. E o direito ao silêncio? Não haverá tribunal nenhum que o defenda? Só silêncio. Uma vida em que o meu peito não seja um amplificador do ruído, e a minha cabeça uma caixa de ressonância de todos os barulhentos, que como os cães são os que menos mordem, mas cujo ladrar incomoda. O meu silêncio acaba onde começa o vosso ruído. Fazeis barulho por tudo, e o quê, por um silênciozinho de nada?
A vida toda sem ruído, para ser o mais próximo de mim, e de ti, e de ti, e de ti. Se eu fosse “Miss”, diria que um silêncio pode acabar com a fome e até com a guerra, como não sou digo-o também! Tchiu!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Dia 52


Mudaste. Não sei porquê, mas mudaste. Quando te conheci novinha apaixonei-me, mas não disse nada para não estragar. De novos passamos a menos novos, mas para mim continuavas novinha, gira, não bem gira, mais engraçada, achava-te graça. E eu fiquei com essa graça dentro de mim. Fiz-me ainda menos novo, mas tu continuavas lá, num pedaço de coração com toda a graça que te achava. Às vezes quando novinhos, levava-te a casa num carro vermelho, como dois namorados, mas despedíamo-nos sempre como se o não fôssemos, apesar de nos apetecer resvalar para os lábios um do outro. Ficávamos com meia boca em meia boca e a outra meia na cara, feitos tontos. Às vezes um olhar, às vezes um sorriso, às vezes uma vodka laranja, às vezes uma barraca na praia.
Depois duas vidas paralelas sem perspectiva de intercepção. Várias vidas paralelas. Por vezes pegava no carro e fingia que te levava a casa e podia jurar que me cresciam borbulhas. Levei-te muitas vezes a casa.
Agora que ainda menos novos, embora tu sempre novinha, as duas paralelas tocaram-se, como que num desafio à geometria.
E pronto estava tudo tranquilo, amo-te para baixo e para cima, conseguimos o empréstimo para este apartamentozinho no rés-do-chão, o meu carro quase pago, já tínhamos posto a tijoleira, fechamos a marquise. Em Outubro viria a televisão grande que vimos na loja, pelo Natal ia dar-te um micro-ondas de surpresa... E tu mudaste. Não sei porquê mas mudaste. Mudaste para o terceiro direito do nosso prédio, onde mora o doutor Gaspar. Não sei porquê mas mudaste. Bem sei que é mais novo que eu, e é doutor. Mas não me importo, continuo a achar-te graça, podes vir cá jantar quando quiseres, diz-me é se o doutor Gaspar vem, porque se vier tenho que abrir vinho, sabes que os doutores bebem sempre vinho...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Dia 51


Sei tudo o que não fiz no verão passado, sei tudo o que vou fazer neste. Sei que vou ter calor e fazer praia, fazer-me ao mar, preguiçar na areia, espetar guarda-sóis
(sou bom a espetar guarda-sóis)
comer gelados, apagar cigarros na areia e juntá-los para pôr no lixo, vou apanhar vento, tanto vento que a areia me vai picar nas pernas a expulsar-me da praia.
Sei que não vou olhar para as dunas a ver se tu apareces, todo vestido, de mão em pala sobre a testa à minha procura. Sei que não vou perguntar a ninguém
- Já posso ir ao banho?
Sei que me vou fartar de tanta gente. Sei que me vou cansar de jogar à bola com os putos. Sei que não vou ter a alegria de um pão com fiambre a sair da geleira e um pacote de sumo a adoçar-me o dia.
Sei que vou olhar horas para o mar, a vê-lo a ir e a vir, e a pensar que quando vai nos leva tudo e quando vem não deixa nada! Isto porque sei que os anjos caiem do céu, e não os dá o mar à costa.
Caíste-me do céu, quero que nos leve o mar, para não mais nos trazer, a costa nenhuma...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Dia 50


Desce o elevador comigo, o senhor Moreira. Digo-lhe que o tempo está uma merda, e ele sorri orgulhoso! Está montado nuns chinelos de borracha, de fita por sobre o peitinho do pé, branco o pé, calções demasiado largos, para umas perninhas de alicate com meia dúzia de pêlos, e com uma t-shirt a dizer “ I’m too sexy for my car”. A pele tão branca como uma noiva antiga. Traz consigo uma parafernália de detergentes, cêras, escovas e panos, é domingo tinha-me esquecido, vai lavar o automóvel. Por isso aquela cara de felicidade quando me viu.
- O do doutor também precisava de uma lavadela
É genuína a sua felicidade de criança, que corre para o recreio com uma bola debaixo do braço.
Eu fico a pensar que também gostava de ser feliz ao domingo à tarde, a puxar brilho aos cromados, a contornar a pincel a parte de fora dos pneus, num assobio de pintor e com uma paciência de cartas, percorrer todos os recantos do tablier, aspirar todas as migalhas que não estão lá e ter alguém da janela a gritar, tá na mesa!
E ficar a rezar, não tenho dúvidas que o Moreira o faça, para que durante a semana caia uma chuvinha malandra, que lhe permita ser feliz no próximo domingo!