quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Dia 89


A noite bate-me nas costas como um sopapo de mão gorda. Afocinho de cabeça no mundo, fica-me a boca cheia de terra. É sempre assim, a gente a ver a maravilha do sol sobre o mar e lentamente a terra a subir, não o sol a descer, a terra a subir, lentamente a terra a subir. Quando de pés na areia a entrar no mar, reencontro-me contigo. É aí que te sinto. É aí que reaprendo a nadar. Não sei explicar. A minha mãe é água. É aí que sinto que me abraça. E de repente a noite traiçoeira, nas costas, a roubar-me os poucos minutos do último sol a tapar-se de terra. Os melhores minutos do mundo, poucos, como tudo o que é melhor, escassos, como tudo o que é sublime. Mas pelo menos a noite assegura-me esses momentos, porque o mundo não sobreviveria sem ela, nesse tempo de equilíbrio, em que parece que pára, para fazer sair o dia e deixar entrar a noite, neste lado da terra, neste lado de mim.