A noite bate-me
nas costas como um sopapo de mão gorda. Afocinho de cabeça no mundo, fica-me a
boca cheia de terra. É sempre assim, a gente a ver a maravilha do sol sobre o
mar e lentamente a terra a subir, não o sol a descer, a terra a subir,
lentamente a terra a subir. Quando de pés na areia a entrar no mar,
reencontro-me contigo. É aí que te sinto. É aí que reaprendo a nadar. Não sei
explicar. A minha mãe é água. É aí que sinto que me abraça. E de repente a noite
traiçoeira, nas costas, a roubar-me os poucos minutos do último sol a tapar-se
de terra. Os melhores minutos do mundo, poucos, como tudo o que é melhor,
escassos, como tudo o que é sublime. Mas pelo menos a noite assegura-me esses
momentos, porque o mundo não sobreviveria sem ela, nesse tempo de equilíbrio,
em que parece que pára, para fazer sair o dia e deixar entrar a noite, neste
lado da terra, neste lado de mim.