Oito
dias e faço sessenta anos. Oito dias e não faço ideia de como sessenta anos,
dado que em mim, uns dias cinco, seis anos, outros vinte, vinte e um, outros há
(poucos, muito poucos) que oitenta e seis. E portanto como em mim a cabeça mais
jovem não entendo como daqui a oito dias sessenta anos. É verdade que de manhã
no espelho da barba, (aquele que lá aparece não sou eu) se notam os vincos na
cara, os papos dos olhos, os parêntesis da boca mais profundos, por isso faço a
barba no espelho embaciado que recuso limpar, e portanto uma nuvem esconde-me
de mim (se é que sou eu). Para não haver confusões parti outro dia o espelho da
entrada para não me ver (se for verdade que aquele velho sou eu, o que não me
parece), o espelho do elevador também se partiu (o parti), e como administro o
condomínio consegui convencer as senhoras idosas, todas com mais de sessenta
anos, que a despesa em limpa vidros era insustentável e que as pensões nem para
comer davam, quanto mais para luxos de espelhos no elevador. Ficam-me a faltar
os retrovisores do automóvel, mas a esses nada posso fazer, mesmo assim para
evitar que acidentalmente o gajo que se cruza comigo na casa de banho apareça,
passei o domingo inteiro a ajeitá-los, de modo que julgo que nunca mais o (me?)
vejo. Dizia portanto que daqui a oito dias sessenta anos, e com os espelhos
reduzidos a cacos, só me inquieta o facto, de que se for atropelado hoje,
amanhã no jornal,
“ Homem
atropelado na estrada de Benfica”
se
atropelado daqui a oito dias,
“Sexagenário
atropelado na estrada de Benfica”.
Só isso
me aborrece, o resto está tudo tratado.