Cada lágrima a seu sítio Fatinha. Não adianta começares às voltas na sala, calma, só estou a falar para teu bem. Só estou a dizer que cada lágrima a seu sítio, desde que o paizinho se abraçou àquele autocarro, que pingas lágrimas fora do sítio. Não subas para a mesa que hoje não vamos limpar o candelabro, pára com isso, não adianta, são quase horas de jantar e isso é empreitada para um domingo inteiro. Não percebes o que quero dizer? Quero dizer que cada lágrima a seu sítio, na morte do paizinho, lágrimas pelo paizinho, não lágrimas porque os miúdos longe a trabalhar
(-Tão novos os meninos!)
não lágrimas pela mãezinha, não lágrimas por não teres terminado o curso de enfermagem, não lágrimas pela vida de lava seca e passa, do corta cozinha e come. Fatinha larga a sanefa que hoje as cortinas não vão para a banheira, já as lavaste na Páscoa. Pára quieta senta-te aqui ao meu lado, não, não é para conversa séria, é para chorares aqui pelo paizinho, vá. Pára de puxar as gavetas do congelador, não, não vais descongelar isso para limpar, está cheia de coisas, vais ver que se estragam. Só queria que fosses capaz de chorar pelo paizinho, cada lágrima a seu sítio, as do paizinho agora, nem amanhã nem depois, agora. Sentamo-nos aqui os dois e, pára quieta porra, não vês que eu ainda não consegui chorar pelo paizinho?