sábado, 13 de dezembro de 2014

Dia 115

Sou sozinho. Primeiro o meu pai numa amálgama de metal entre a mota e o camião do lixo, há menos tempo a minha mãe, derivado ao açúcar no sangue, de modo que sou sozinho. Sorte que um tio
- Anda cá rapaz
isto no enterro da minha mãe
- Não queres ir lá para a oficina
Eu sem saber o que responder, nunca fiz nada, o médico para a minha mãe, não agora, quando pequeno,
- O seu filho um atraso
eu de olhos no chão a contar os tracinhos da carpete,
- É como se pensasse em câmara lenta, percebe.
Só naquele pedaço de carpete trezentos e quarenta tracinhos.
A partir daí deixei de ir à escola, diziam
- O Mariozinho é um menino especial.
Eu não me sentia especial fosse no que fosse, e passei a ir para uma escola especial que em vez de me continuar a ensinar a escrever, me punha a empilhar cubos às cores a tarde inteira, pousava o último cubo, e a professora especial,
- Palmas para o Mariozinho
Comecei a dar fé que
-O seu filho um atraso
era ser mau aluno, ou um tolo, talvez porque desatento, ficava horas a olhar a janela da sala, ou no recreio uma árvore, e fazia uma fotografia na cabeça que depois desenhava e pintava em casa. Tenho centenas de desenhos e pinturas debaixo da cama.
De modo que agora na oficina. Sorte que o tio,
- Anda cá rapaz
Isto quando foi lá a casa, e se admirou com as paredes todas pintadas,
- Tu não queres ir para uma escola onde se aprende pintura?
 E foi assim, cá estou numa escola especial só para aprender a pintar, mas agora já não,
- Palmas para o Mariozinho
agora
- Palmas para o talentoso Mário Ramos.
Ainda assim sou sozinho, e embora,
- Palmas para o talentoso Mário Ramos.
seja mais lisonjeiro,
- Palmas para o Mariozinho.
fazia-me menos só.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Dia 114

Provavelmente adorarias homens aos cachos a caírem maduros de desejo aos teus pés. Felicíssima, andarias como feitora, na vindima  de homens caídos que se transformaria a tua vida, a pisar com os saltos os  bagos mais maduros que rolariam no chão, e avaliando os verdes e os não maduros demais, em ademanes de socialite, indicando-os com o dedo rigoroso para serem levados para o lagar da tua cama, onde seriam esmagados mais tarde pela crueldade nua dos teus pés. Provavelmente adorarias. Provavelmente caem. Eu caí. Não te censuro. Resta-me contudo a esperança, porque se não vindima o ano inteiro, que às doze badaladas de trinta e um de Dezembro, te apeteçam umas passas, para pedir desejos que te desejem, e aí apareço eu, seco, rugoso e doce para te vindimar as manias.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Dia 113


Como choro para dentro? Como queres que te explique como choro para dentro? É como rir para dentro, nunca te ris para dentro? Pois essa parte das lágrimas não te sei explicar, se calhar escorrem para dentro. Mas palavra que choro para dentro, os olhos começam a marejar e não me sendo possível chorar para fora, porque estou na rua ou tu aqui ao pé, e eu não te querendo incomodar, decido chorar para dentro.
Pronto então se admites que já te riste para dentro tens de compreender que eu choro para dentro. Não te preocupes porque choro, são coisas minhas, penas que carrego.
Não falo com ninguém sobre isso tens razão, tu falas porque és religiosa confessas-te, rezas, tens fé, pedes a Deus e a Nossa Senhora por tudo e por nada. Se calhar tenho que procurar ajuda. Qual psiquiatra qual quê, sabes que não sou dessas mariquices. Só digo disparates?  Disparate é um destes dias me afogar em mim. Eu preciso é de um nadador-salvador.

sábado, 28 de junho de 2014

Dia 112

Não fosse tarde e escrevia-te uma carta, cheia de nomes. Feios. Não daquelas,
Ó vil mulher que meu coração dilaceraste...
Porque estas demasiado educadas e poéticas, ao jeito de poetas sofredores de outros tempos. Esta seria mais moderna (ao teu jeito), cheia de nomes feios e palavrões cabeludos daqueles que até fazem cócegas nos ouvidos. Era o que merecias. Não fosse já tarde era o que levavas. Acontece que o eu moderno se incompatibiliza com o eu poético e sofredor de outros tempos, e a mão foge-me para,
Ó vil mulher que meu coração dilaceraste…
E continuo a passar na tua rua de vez em quando, a tentar ver-te para lá da fortaleza dos muros. Nunca te vejo.
Sucede que há dias, passei lá de novo, como sempre não te vi, mas desta vez o teu carro à porta, reparei que todo sujo, com o vidro de trás todo empoeirado, mesmo a pedir um dedo escrevedor de puto malandro que lá deixasse um,
“Lava-me porco!”
 E como o meu eu puto se incompatibiliza bastas vezes com o meu eu adulto, saí do carro, e sorrateiramente desenhei a clássica frase. Estaria tudo bem se o meu eu moderno não se deixasse superiorizar pelo meu eu poético e sofredor de outros tempos dado que,
“Lava-me ó vil mulher que meu coração dilaceraste”
não me parece bem um insulto, nem sequer um nome feio.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dia MRP


Ó Marta, não olhes agora, no fundo do balcão aquele giraço, cabelo de surfista, o loiro com nuances de cobre. Giro não? Aquele pulôver rosa velho pelas costas, camisa branca bem aberta no peito depilado, o tipo dá cabo de mim, vou já pedir outro cosmopolitan. Que homem Carminho, e o Vicente como está isso? Ah, passou lá por casa para buscar as coisas, não quero saber, por mais que o avisasse deixava sempre a tampa da sanita aberta e umas pingas que me deixavam à beira de um ataque de nervos, para não falar no futebol e nas cervejas com os amigos. És uma romântica Carminho, não páras de procurar o príncipe encantado! Dizes bem Marta, se há coisa que costumo dizer é: não desistas nunca de procurar o amor porque há sempre um príncipe para cada princesa e pode aparecer a qualquer esquina! So true! És demais amiga, devias começar a escrever isso, quem sabe um dia até um romance. É, “Sei Lá”, Há Sempre Uma Primeira Vez” , “Vou Contar-te um Segredosabes que “Pessoas como Nós” procuram sempre “Onde Reside o Amormas sinto-me como um’ “A Rapariga que Perdeu o Coração”, “O Amor é Outra Coisa Marta, preciso de um “Português Suave “ que me ame verdadeiramente. Hoje aquele gato ali a olhar para mim, é como costumo dizer: “Não há Coincidências

 Nota do editor:
O autor sofreu um ataque de margaridarebelopintice. Pelo facto pedimos desculpa.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Dia 110

Cada lágrima a seu sítio Fatinha. Não adianta começares às voltas na sala, calma, só estou a falar para teu bem. Só estou a dizer que cada lágrima a seu sítio, desde que o paizinho se abraçou àquele autocarro, que pingas lágrimas fora do sítio. Não subas para a mesa que hoje não vamos limpar o candelabro, pára com isso, não adianta, são quase horas de jantar e isso é empreitada para um domingo inteiro. Não percebes o que quero dizer? Quero dizer que cada lágrima a seu sítio, na morte do paizinho, lágrimas pelo paizinho, não lágrimas porque os miúdos longe a trabalhar
(-Tão novos os meninos!)
não lágrimas pela mãezinha, não lágrimas por não teres terminado o curso de enfermagem, não lágrimas pela vida de lava seca e passa, do corta cozinha e come. Fatinha larga a sanefa que hoje as cortinas não vão para a banheira, já as lavaste na Páscoa. Pára quieta senta-te aqui ao meu lado, não, não é para conversa séria, é para chorares aqui pelo paizinho, vá. Pára de puxar as gavetas do congelador, não, não vais descongelar isso para limpar, está cheia de coisas, vais ver que se estragam. Só queria que fosses capaz de chorar pelo paizinho, cada lágrima a seu sítio, as do paizinho agora, nem amanhã nem depois, agora. Sentamo-nos aqui os dois e, pára quieta porra, não vês que eu ainda não consegui chorar pelo paizinho?

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dia 109


Desde pequeno quem em mim, qualquer coisa por ti. Desde pequeno um calor a subir-me e a concentrar-se na cara, um nó na garganta, um aperto no estômago. Tu não me passavas cartão. Eu, fruto da minha compleição física ficava sempre à baliza, afortunado era, podia mirar-te da linha de golo encostado a um dos postes, enquanto tu miravas o rufia que fintava tudo, distribuía pancada e marcava golos que se fartava. Às vezes, 
- Vai Tó!

e como distraído, já não a apanhava a tempo,

- Ò Tó…

A equipa de braços caídos, a dizer que não com a cabeça, e eu só já a apanhava no fundo do recreio, quase já na estrada, derivado à falta de redes nas balizas. Chegava suado e corado, entre sorrisos e bocas de troça.

Foi assim até ao fim do liceu. Pelo que sei continuaste a estudar, eu não, fiquei a ajudar o meu pai nas coisas da pichelaria. Agora abri uma firma e pus escritório, ninguém me bate em diagnósticos ao sifão nem à reparação de qualquer encanamento. E em mim, ainda qualquer coisa por ti.

Há dias, eu a chegar a uma obra, e sai um grito de um andaime,

- Ò Jóia, anda cá ao ourives!

 Espreitei e tu, tu igual, linda de fazer cair os andaimes, eu ia falar-te, mas de repente cai um,
- Vai Tó!

Não dos andaimes, na minha cabeça,

- Vai Tó!

E não te falei, com medo de já só ir apanhar o coração no fundo do recreio, quase já na estrada, derivado da impiedade com os guarda-redes.