Eras linda e chamavas-te Rosa,
eras loira e eu chamava-te Zita, Zita não de Rosita de “loirazita”. Na aldeia, quando
passava afogueado pelo dominó dos reformados para te ir buscar, alguém
- Rápido que te atrasasOutro
- Tás de beiço pela russa.
Eu não percebia porque russa, dado que russa o nome da porca, no chiqueiro da minha avó, e nome de gente má nos filmes americanos. Ela bem portuguesa só que loira. Eu embeiçado sim. Todos os dias juntos a caminho da escola e que bom era o cheiro do caminho da escola,o húmido do outono e o seco do verão são os que mais me lembro, adjectivos para eles não tenho, sei que ainda hoje, se os sinto, milhares de luzes na cabeça a acenderem-me a adolescência. Dizia, todos os dias juntos a caminho da escola: eramos felizes.
Eu apaixonado e ela sem perceber, ou a fingir não perceber, ela
- Quando for grande vou para a cidade
E um medo tão grande em mim, que a cidade me levasse a Zita.
Vezes havia que me dava a mão, e que paz desassossegada aquela mão, um calor com cócegas na barriga. Mas as manias de cidade cresciam nela
- Quero ser alguém na vida
Infelizmente não na minha. Um dia o sonho acabou, chegou um primo de França que lhe prometeu trabalho, dizia que numa fábrica (ele dizia usine), mas aposto que para limpar o chão de ricos, a Zita já só via Paris e não me ouviu. Ela foi. Eu morri, melhor, fui morrendo. E não sei o que melhor há que um amor para se ser alguém na vida. É certo que no mundo, mais amores desencontrados que felizes, mas, mais certo ainda, é aparecer um primo de qualquer lado a prometer-nos ser alguém, e que de dentro do carro com o nosso amor ao lado, nos pisca o olho e diz arrancando
-C’est la vie.