terça-feira, 8 de abril de 2014

Dia 108


 Tirei o fato,  gravata e camisa, fato de macaco da minha infelicidade. O molho de chaves para cima do móvel do quarto, um grito da cozinha, 
- Olha que me riscas a cómoda!
Cómoda velha, velha e feia, era da mãe dela, por isso tanto garbo no brilho da dita.
- E vê se tiras esses sapatos, que passei cêra no soalho!
Lá fui descalço até à cozinha, ao entrar,
- Não entres que acabei de passar a esfregona!
Meia volta e segui descalço corredor fora até à casa de banho, aliviei-me, puxei o autoclismo, depois um ruído agudo vindo dos intestinos da parede, que me fez tapar os ouvidos e se foi perdendo à medida que o autoclismo enchia novamente.
- Já te disse que tens de arranjar isso!
Na televisão havia futebol, mas para evitar,
-Outra vez futebol?
Deixei numa das novelas e peguei no jornal. Da cozinha,
- Então não vês o futebol?
E eu já nem via futebol, nem a via a ela doutor! Por isso estou aqui, um amigo meu que sofre de nervos é que me aconselhou o senhor doutor, com a aprovação do doutor juíz claro, mas juro-lhe pela minha mãe que só lhe acertei de raspão.