quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dia 109


Desde pequeno quem em mim, qualquer coisa por ti. Desde pequeno um calor a subir-me e a concentrar-se na cara, um nó na garganta, um aperto no estômago. Tu não me passavas cartão. Eu, fruto da minha compleição física ficava sempre à baliza, afortunado era, podia mirar-te da linha de golo encostado a um dos postes, enquanto tu miravas o rufia que fintava tudo, distribuía pancada e marcava golos que se fartava. Às vezes, 
- Vai Tó!

e como distraído, já não a apanhava a tempo,

- Ò Tó…

A equipa de braços caídos, a dizer que não com a cabeça, e eu só já a apanhava no fundo do recreio, quase já na estrada, derivado à falta de redes nas balizas. Chegava suado e corado, entre sorrisos e bocas de troça.

Foi assim até ao fim do liceu. Pelo que sei continuaste a estudar, eu não, fiquei a ajudar o meu pai nas coisas da pichelaria. Agora abri uma firma e pus escritório, ninguém me bate em diagnósticos ao sifão nem à reparação de qualquer encanamento. E em mim, ainda qualquer coisa por ti.

Há dias, eu a chegar a uma obra, e sai um grito de um andaime,

- Ò Jóia, anda cá ao ourives!

 Espreitei e tu, tu igual, linda de fazer cair os andaimes, eu ia falar-te, mas de repente cai um,
- Vai Tó!

Não dos andaimes, na minha cabeça,

- Vai Tó!

E não te falei, com medo de já só ir apanhar o coração no fundo do recreio, quase já na estrada, derivado da impiedade com os guarda-redes.