A minha vizinha loira (que nasceu morena), deixa um rasto de perfume do rés-do-chão ao quinto andar, incluindo claro o elevador. Digo que nasceu morena porque cabelo loiro mas sobrancelhas castanho escuras.
Eu moro com a minha mãe, que coitada sofre dos nervos e da cabeça, que coitada precisa de mim, que coitado preciso dela.
Há meses mudou-se para cá, e dirige com profissionalismo e garbo uma boutique no centro comercial antigo aqui do bairro.
Quando não estou a partir lorenins, xanaxes, e anti-depressivos para os cocktails da minha mãe (que os toma com café), estou a espreitar a loira.
Do buraco da porta ou da marquise, da janela do quarto ao café do Albino, estou com ela em mira sempre que posso, que isto de estar desempregado tem as suas vantagens, e nas coisas do amor não olho a gastos, nem de tempo nem de dinheiro.
Sai de manhã, não muito cedo, e eu sigo-a, primeiro com o nariz ao alto a farejar a colónia inebriante, depois com os olhos em alvo naquelas calças de couro ( não sei se napa se couro), nos sapatos altos e brilhantes como que a desafiar a gravidade, no casaco peludo leopardo e por fim naquela melena loira. Digo que a partir daí todas as minhas partes em sobressalto. Na quinta-feira tomei-me de coragem e convidei-a para jantar no restaurante snack-bar Nelito na rua ao fundo.
Primeiro nervoso, depois tranquilo, derivado à carga etílica do vinho da casa, que o Nelito manda vir de Espanha, fiquei deliciado a ouvi-la. Disse-me que curtia cenas e que o melhor do mundo são as crianças, disse-me que é por isto que o país está assim e que adora citações do Paulo Coelho. Percorreu cheia de opiniões toda a actualidade politica e toda a não politica também, disse-me em quase lágrimas que estava só e de bem com a vida, e eu acenava a cabeça que sim, completamente rendido àquela mulher linda e culta. Sim, linda e culta. No final disse-me,
- Pedras no caminho? Guardo-as todas, para um dia construir um castelo!
Linda e culta, muito muito culta!