A Amélia viúva, em trajes negros e lenço de luto a atar a cabeça, vai todos os dias ao cemitério. Pára na florista do mercado e pede um molhinho do que houver, às vezes margaridas, outras crisântemos, às vezes uma rosa roubada do jardim do senhor doutor, a coberto do cedo do dia. Quando só há malmequeres diz
- Meu Deus nem pensar, o meu bem querer pelo meu homem ainda o tenho, se lhe boto malmequeres o que é que ele há-de pensar!
Chega cedo, e antes de depositar as flores na jarra velha de pedra, desata a limpar a campa com uma vassourinha pequena. Fá-lo com tal vigor que fica vermelha e ofegante, mas feliz, e não perde uma oportunidade de dizer a toda a gente
- A mármore mais branca do cemitério é a do falecido da Amélia viúva.
Depois com um lencinho, limpa a fotografia de esmalte do morto, enche a jarra com água limpa, põe-lhe as flores e deposita-a na laje que brilha. Em pose de prece e em frente à campa, mexe os lábios depressa a rezar poemas dos apóstolos. Depois vai, e amanhã volta.
Eu gostava de ser como a Amélia viúva, não na parte do viúva claro, mas gostava de ir ao cemitério para estar com os que amo (amei?), acreditar que eles lá estão e falar sozinho com eles, mas sempre que lá vou parece que combinaram e foram todos embora.