Era adolescente e apaixonei-me por ti. Eras adolescente e apaixonaste-te pelo gajo mais velho da turma, que tinha mota, botas texanas e blusão de penas, e fumava como gente grande. Eu era muito magro e alto, não fumava e não tinha roupas da moda. Os meus pais proibiram-me a mota, as botas e o blusão que daria mais volume ao meu corpo esquelético.
Fomos um dia na excursão do liceu, eu a mirar-te embeiçado, e tu, no último banco da camioneta, fizeste liceu Conímbriga, num só beijo de língua, com o tal palhaço da mota. Saímos para o piquenique e reparei nas tuas maçãs do rosto vermelhas e nos olhos piscos derivado aos beijos e “amassos” do ilustre “três vezes repetente” do sétimo ano. Como podia competir com esse galifão, já de rosto sem espinhas, cigarro ao canto da boca, botas calças e blusão da moda, campeão de porrada no recreio, fumador de charros atrás do pavilhão, provocador de suspiros nas aulas de educação física?
Ainda tentei seduzir-te oferecendo-te cadernos fofinhos com bonecos ainda mais fofinhos, papel de carta com perfume, borrachinhas em forma de coração, pastilhas elásticas e gulodices de todo o género. Em vão!
Por quem quer que me apaixonasse, lá vinha um repetente que me matava o sonho. Sempre que passava por ti, ficava vermelho envergonhado, sem saber sequer como andar, nunca sequer um olá me deste.
Há dias passaste por mim na rua, e olha que já passaram mais de vinte anos, e pela primeira vez disseste-me olá, pelos teus olhos e sorriso, pareceu-me que me achaste giro. Mas agora que importa? Achei-te gorda e desmazelada, a empurrares o carrinho de bebé numa tristeza de domingo de inverno.
Mas que fique desde já aqui a ressalva, contra repetentes (que fumam e andam de mota e têm roupa da moda) não tenho nada, tenho é inveja de me terem roubado para aí dez mulheres da minha vida!