Tenho pena que tenhas partido. A gente sentava-se aqui no quentinho do sofá, de mantinha sobre os joelhos, e passávamos horas a ver televisão.
Durante a semana, eu na repartição, tu a dias a desempoeirar fardas na casa do senhor coronel.
Durante a semana, eu a esborrachar carimbos em impressos, tu apressada e diligente nos labores domésticos na casa quartel do senhor coronel, de repente
- Conceição
Tu de cabeça baixa
- Sim senhor coronel, diga senhor coronel
Ele em tom grave de sacerdote
- Esta camisa está mal passada
e tu nervosa, em hesitações de formiga, já de tábua e ferro na mão para acabar com os vincos.
Eu na repartição e de repente
- Pereira
E eu logo em passo miúdo a bater pala em frente à secretária
- Sim chefe
Ele a olhar o impresso 2B
- Este carimbo está ao contrário
e eu a toque de caixa a correr para a secretária a pensar como pude falhar aquele carimbo.
Éramos felizes, não éramos?
Depois chegava o fim de semana, dobrávamos os pijamas e fazíamos a cama de lavado. Eu lia aquele jornal pesado que vinha num saco de plástico, enquanto tu, meu amor, davas um jeitinho à casa.
Sábado à tarde, tu de rolos na cabeça, eu, se tempo bom, abrilhantava os cromados ao automóvel.
Depois a gente sentava-se aqui no quentinho do sofá...
Domingo os teus pais no automóvel, almoçávamos na churrasqueira, depois um passeio a pé para “desmoer”, tu à frente com a tua mãe eu atrás com o teu pai.
Éramos felizes.
O nosso Toni em Coimbra para ser doutor.
E tu partiste.
Ainda assim ao domingo, pego nos teus pais e rumamos à churrasqueira, guardo sempre o teu lugar, com prato, copo e talheres, no caso de apareceres.
Dizem-me, eu não acredito, que passaste de mulher a dias do coronel, para mulher a dias e noites, dizem-me, eu não acredito. Não te esqueças de tomar as gotinhas para a tensão meu amor.