quarta-feira, 6 de maio de 2015

Dia 116


Somos para aqui dois velhos, acanho-me de te beijar, não em casa, na rua, porque a vida de hoje é tão jovem. Aceitamos dar as mãos sem pudor algum apesar de,

- Que giros aqueles dois velhos de mãos dadas

Apesar de a vida de hoje ser tão jovem. Damos as mãos. Acanhas-te de me beijar na rua porque um dia um,

- Que nojo

Vomitado de uma rapariga tão jovem, te esmagou contra a idade. Uma vida tão jovem com uma cabeça na idade média afectiva. A vida de hoje é tão jovem e tão descaradamente paleolítica.

Não calço as sapatilhas que me deste, as azuis com uma risquinha branca, porque na vida de hoje não cabe a minha juventude, sou velho, sou reformado, recebo pensões e tenho passes grátis e descontos nos comboios, calça-te de velho, não gaiteiro, morto é como te querem. Calça-te de velho, veste as calças de fazenda cinzenta e a camisola de lã castanha com borboto e esfarela o miolo de pão seco para os pombos, é para o que serves, para dar milho aos pombos e bateres as cartas sebentas na bisca dos reformados.

Somos para aqui dois velhos, mas não mortos, apesar do desejo estatístico dos rapazes que mandam nisto.

-É preciso nascer mais gente

Grita o profeta de Belém, não o de há dois mil anos, o outro, que me parece morto há mais tempo. E por detrás desse grito, parece-me ouvir

- Precisamos que morra mais gente

Para a sustentabilidade de patatá patatá… e aí deixo de ouvir, pois já me basta a morte querer-me matar.