Somos para aqui dois velhos, acanho-me de te beijar, não em casa, na rua, porque a vida de hoje é tão jovem. Aceitamos dar as mãos sem pudor algum apesar de,
- Que giros aqueles dois velhos de mãos dadas
Apesar de a vida de hoje ser tão jovem. Damos as mãos. Acanhas-te
de me beijar na rua porque um dia um,
- Que nojo
Vomitado de uma rapariga tão jovem, te esmagou contra a
idade. Uma vida tão jovem com uma cabeça na idade média afectiva. A vida de
hoje é tão jovem e tão descaradamente paleolítica.
Não calço as sapatilhas que me deste, as azuis com uma
risquinha branca, porque na vida de hoje não cabe a minha juventude, sou velho,
sou reformado, recebo pensões e tenho passes grátis e descontos nos comboios,
calça-te de velho, não gaiteiro, morto é como te querem. Calça-te de velho,
veste as calças de fazenda cinzenta e a camisola de lã castanha com borboto e
esfarela o miolo de pão seco para os pombos, é para o que serves, para dar
milho aos pombos e bateres as cartas sebentas na bisca dos reformados.
Somos para aqui dois velhos, mas não mortos, apesar do
desejo estatístico dos rapazes que mandam nisto.
-É preciso nascer mais gente
Grita o profeta de Belém, não o de há dois mil anos, o
outro, que me parece morto há mais tempo. E por detrás desse grito, parece-me
ouvir
- Precisamos que morra mais gente
Para a sustentabilidade de patatá patatá… e aí deixo de
ouvir, pois já me basta a morte querer-me matar.