sábado, 28 de junho de 2014

Dia 112

Não fosse tarde e escrevia-te uma carta, cheia de nomes. Feios. Não daquelas,
Ó vil mulher que meu coração dilaceraste...
Porque estas demasiado educadas e poéticas, ao jeito de poetas sofredores de outros tempos. Esta seria mais moderna (ao teu jeito), cheia de nomes feios e palavrões cabeludos daqueles que até fazem cócegas nos ouvidos. Era o que merecias. Não fosse já tarde era o que levavas. Acontece que o eu moderno se incompatibiliza com o eu poético e sofredor de outros tempos, e a mão foge-me para,
Ó vil mulher que meu coração dilaceraste…
E continuo a passar na tua rua de vez em quando, a tentar ver-te para lá da fortaleza dos muros. Nunca te vejo.
Sucede que há dias, passei lá de novo, como sempre não te vi, mas desta vez o teu carro à porta, reparei que todo sujo, com o vidro de trás todo empoeirado, mesmo a pedir um dedo escrevedor de puto malandro que lá deixasse um,
“Lava-me porco!”
 E como o meu eu puto se incompatibiliza bastas vezes com o meu eu adulto, saí do carro, e sorrateiramente desenhei a clássica frase. Estaria tudo bem se o meu eu moderno não se deixasse superiorizar pelo meu eu poético e sofredor de outros tempos dado que,
“Lava-me ó vil mulher que meu coração dilaceraste”
não me parece bem um insulto, nem sequer um nome feio.