- É grave doutor?
Silenciou-se ainda mais, num franzir de testa que me pôs ansioso. Não era simpático. Bem, não era simpático, na bitola que baliza as pessoas que não doutores, porque a simpatia dos doutores não se mede pela do homem comum. Um pequeno sorriso de um doutor, vale o mesmo que mil sorrisos da gente.
- Pois é amigo Ferreira.
Disse simpaticamente (simpaticamente?)
- O meu amigo está com que idade?
- Oitenta senhor doutor.
- Pois é, pois é… Já é um bocadinho.
Permaneceu calado mais um pedaço, com os exames da cabeça para cá e para lá, a virá-los para cima e para baixo numa caixa de luz branca. Para mim pode dizer seja o que for, que tenho a certeza que é da cabeça, as análises ao sangue bem, as tensões bem também, para mim a mesma doença da cabeça que o meu pai. De repente apagou-se no sofá, com os olhos muito abertos a fixar sabe-se lá o quê, deixou de falar, e assim durante anos, até nos ligarem do lar, a dizer que se foi. Lembro-me que no início, sem perceber bem que raio lhe sucedia, lhe perguntava
- Como se sente paizinho?
Ele ficava ali parado que tempos, de olhos arregalados para mim…
- Pois é senhor Ferreira
Voltou de repente o médico
- Como se sente?
- Bem senhor doutor, como explicar, sinto-me longe.
E era isso que dizia o paizinho, de olhos arregalados e desconhecidos de mim, a cortar um silêncio longo,
- Sinto-me longe.