terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Dia 103
Não sou
muito letrado. Quando mais novo, os meus pais derivado ao dinheiro a fazer-se
curto, mandaram-me para a padaria do Abílio e no Abílio até hoje. Fiquei-me
pelo nono ano. Mas amanho-me bem com as contas da farinha e do fermento e sou
eu que preencho as papeladas para o Abílio. Não sou muito endinheirado. O pão
cada vez sai menos, mesmo com as artimanhas do Abílio a subtrair farinha e sal
ao pão, não me consegue pagar grande coisa, às vezes nem paga, tenho-lhe afecto
e não reclamo. Mas estou eu para aqui a falar sozinho, e ainda não sei nada de
ti. Que leste o anúncio já sei, dado que os dois aqui. Sei que também o nono
ano, que não endinheirada. Parece-me que bem um para o outro. Não mencionei este
jeitinho na perna, porque me pareceu irrelevante, e mais palavras no anúncio
mais dinheiro, sabes como é. Já umas dezenas deles e só tu apareceste. Da
calvície também não falei derivado àquela coisa: é dos carecas que elas gostam
mais. Tirando o que me falta (o dinheiro, a escola, uns centímetros na perna, o
cabelo), tenho tudo para gostares de mim. Pareces-me bem, gosto desse teu ar
poético e meio distante, de quem está aqui e não está, se calhar por essa
capacidade (que também não mencionaste) de um olho focado em mim e outro três
mesas ao lado.