quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Dia 101

Farta de tudo. Há anos que farta de tudo. Emprego nenhum, apesar de várias e repetidas tentativas, apesar do diploma, caríssimo, enrolado no tubo de metal, a perder o dourado na estante.
O meu pai, uma pressão tremenda,
- Faz-te à vida.
A minha mãe, sempre a doçura e delicadeza de o ser, queixa nenhuma, amargo nenhum.
Farta de tudo.
Refeições eternas, porque mudas, os três na mesa e o tecto da cozinha, já não tecto, uma placa de chumbo a esmagar-nos a alma.
De repente o meu pai,
- Preguiçosa é o que tu és, faz-te à vida.
E eu a odiar-lhe o bigode, ainda com pingos de sopa, a impressão que o bigode a falar,
-Faz-te à vida.
Bigode injusto e ignorante das minhas tentativas. O quadro portanto negro e ainda por cima mal pintado.
Num destes duelos mudos, entrecortados somente pelas fúrias do bigode, resolvi,
- Amanhã saio de casa.
O meu pai, garfo suspenso entre o prato e a boca, decide-se pela boca e mastiga num encolher de ombros. A minha mãe, bem se sabe, fez o que qualquer mãe faria.
Saí vadia pela cidade, manhã cedo, no fresco ensolarado de outono. As pernas pediam para fugir. A cabeça pedia para fugir, na certeza absoluta, descubro agora vendo de longe, na certeza absoluta de querer chegar, fosse onde fosse, chegar. Chegar só. E quando à saída de casa me despedi dos meus pais, no encosto de bochecha ao meu pai, que era o máximo da ternura a que se permitia, a impressão que o bigode chorava. A certeza que o bigode chorava.