segunda-feira, 18 de março de 2013

Dia 92


Oito dias e faço sessenta anos. Oito dias e não faço ideia de como sessenta anos, dado que em mim, uns dias cinco, seis anos, outros vinte, vinte e um, outros há (poucos, muito poucos) que oitenta e seis. E portanto como em mim a cabeça mais jovem não entendo como daqui a oito dias sessenta anos. É verdade que de manhã no espelho da barba, (aquele que lá aparece não sou eu) se notam os vincos na cara, os papos dos olhos, os parêntesis da boca mais profundos, por isso faço a barba no espelho embaciado que recuso limpar, e portanto uma nuvem esconde-me de mim (se é que sou eu). Para não haver confusões parti outro dia o espelho da entrada para não me ver (se for verdade que aquele velho sou eu, o que não me parece), o espelho do elevador também se partiu (o parti), e como administro o condomínio consegui convencer as senhoras idosas, todas com mais de sessenta anos, que a despesa em limpa vidros era insustentável e que as pensões nem para comer davam, quanto mais para luxos de espelhos no elevador. Ficam-me a faltar os retrovisores do automóvel, mas a esses nada posso fazer, mesmo assim para evitar que acidentalmente o gajo que se cruza comigo na casa de banho apareça, passei o domingo inteiro a ajeitá-los, de modo que julgo que nunca mais o (me?) vejo. Dizia portanto que daqui a oito dias sessenta anos, e com os espelhos reduzidos a cacos, só me inquieta o facto, de que se for atropelado hoje, amanhã no jornal,
“ Homem atropelado na estrada de Benfica”
se atropelado daqui a oito dias,
“Sexagenário atropelado na estrada de Benfica”.
Só isso me aborrece, o resto está tudo tratado.